Encontros


Está semana encontrei a Cristina no Pingo Doce pertinho de casa, eu não conhecia a Cristina…

‘Desculpe… Ahn… Você é a Mãe Borboleta?’ 🙂

Tão querida… Reconheceu-me porque acompanhou a minha jornada em 2015, também vivendo o mesmo drama na primeira pessoa. Ia beber positivismo no meu blog, e também ela anda a vencer a doença…

‘… Eu fiquei tão feliz em lhe encontrar… Olhei para si… Está muito diferente! Olhei para as suas filhas e reconheci logo… A Mãe Borboleta…’

Ali na sessão dos queijos falamos como se numa esplanada estivéssemos… Eu feliz por ter encontrado uma pessoa a quem fiz bem sem saber, ela por descobrir que o meu final ainda está sendo feliz…

‘… puxa… Você nunca mais escreveu… Eu já estava a pensar o pior…As pessoas que seguem o seu blog gostariam de saber de si e como está tudo… Felizmente lhe encontrei… Está linda!’ 🙂

Dizia ela com um misto de alívio e preocupação.
Tens toda razão Cristina… Ando tão ocupada tentando viver uma vida toda em um dia que o blog vai ficando para depois…aliás… Noto que este é um ‘ defeito’ de quem passa pelo horror de ter tido cancro, querer viver tudo ao mesmo tempo e agora…

E a azia que me dá quando vejo uma vida desperdiçada… Bahhh… Nem vos conto o que sinto quando vejo pessoas a esperarem sempre por algo para, finalmente, buscarem a felicidade.
Falta sempre algo… O amor de uma vida, uma casa nova, um divórcio que nunca acontece por comodidade, um carro novo, um emprego bem sucedido… Um sem número de coisas atachadas a nossa condição mais essencial nesta passagem veloz pela vida: a felicidade… Logo esta…que não precisa mesmo de nada material para acontecer de forma plena…

Infelizmente fiz esta descoberta quando vi a minha vida por um fio… Felizmente foi a tempo de viver intensamente com a felicidade a pulsar em mim com as mesmas notas das batidas do meu coração… 🙂

E com isso não afirmo que não tenho ainda alguns sonhos materiais para realizar… Sou humana, urbana, mulher e sou perfeitamentente normal! :p

Só não anexo estes sonhos a minha condição de estar e ser feliz… Porque o vento nos cabelos num dia de primavera me basta, e ver as minhas filhas crescendo com saúde, e sorrir quando vejo um bebé sorrindo, ensinar a beleza às crianças, amar e ser amada, entre muitas outras coisas extremamente simples que muitas vezes não damos conta do quanto especiais são…

A Cristina não sabia que hoje seria um dia difícil para mim… A minha Doce Amarga rotina de hospital… estar no limbo entre o perfeitamente saudável e o extremamente doente… Virar-me do avesso, voltar a sentir as sensações (aterradoras) que senti naquele hospital, desde o diagnóstico aos tratamentos hostis que recebi ali.

… Ao meu lado… Juntinho e misturado, o amor da minha vida… ele continua a receber o prémio de Maior e Melhor cuidador do mundo! 🙂 ele me cuida com amor e carinho, e nunca falha!

As minhas filhas crescem felizes, saudáveis, boas pessoas…Tenho agora uma adolescente em casa :)…e a Juju continua questionadora e tagarela…

… depois da tempestade ficou só a lembrança de um momento mal… Nada de traumas… Viver é correr riscos em qualquer circunstância, e felizmente com esta confusão toda elas aprenderam isto também, passando a valorizar mais os pormenores da vida que fazem toda a diferenca… E de certa forma o que nos aconteceu mudou para sempre a nossa forma de ser e estar neste mundo.

Mas com isso não afirmo que não rolem lagriminhas naquelas carinhas larocas… E nem digo que dias como os de hoje não lhes aflige os coraçõezinhos … Foram tempos difíceis, passaram, mas as memórias ainda moram em nós…

Sobre o meu trabalho tenho a dizer que muita coisa mudou por conta das mazelas… Mas vivo rodeada de pessoas com corações gigantescos, que compreendem as minhas limitações e me cuidam com carinho… Também há os insensíveis pelo caminho, aqueles que não alcançam a gravidade de ter tido uma doença hostil, com perdas e mutilações que me condicionaram para o resto da vida… Mas por estas pessoas só posso lamentar, ser uma pessoa boa e generosa é muito melhor 🙂

Bem… Mesmo com toda mazela eu trabalho muito! Vou adaptando a labuta na medida daquilo que consigo fazer, e não o contrário!

Ainda bem que consigo… porque a melhor sensação do mundo é ter o trabalho feito com amor e paixão, e sentir-me útil e fazendo a diferença pelos caminhos que passo me deixam mesmo com a boa sensação de dever cumprido… Devolver ao universo tudo o de bom que eu recebo…

Mas… Sim Cristina! Sobre a consulta de oncologia de hoje, está tudo bem! 🙂

As notícias são boas quando me vejo afastada do cancro… Mas existe sempre um ‘mas’… :/

Aumentaram o meu tempo de Tamoxinferno para 10 anos… Ia terminar no ano que vem… :(… Agora são mais 6 anos de efeitos colaterais que me roubam muito da minha qualidade de vida…
Mas também os ‘mas’ têm o seu lado positivo… São mais 6 anos que me garantem uma percentagem (mesmo que mínima) de uma sobrevida maior… 🙂

Obrigada Cristina pelo abracinho caloroso, e obrigada a todos os amigos que estiveram em algum momento comigo no pensamento… Eu nunca estive só… Eu nunca estou só… :)… E sou mesmo muito afortunada por ter pessoas que me amam e torcem pela minha saúde e felicidade.

Agora é a minha vez de vos Abraçar, com calor e gratidão imensa! 🙂

…mais uma batalha…mais um carregamento de força e determinação definindo e traçando o caminho que eu escolhi…sigo feliz com a certeza de que mereço (e faço por merecer) cada sopro de vida!

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