Encontros e Despedidas

…uma notícia que, desta vez, quero muito dar

…e assim, fazendo um balanço do caminho percorrido, venho, em jeito de dar notícia, dizer que, depois de 4186 dias, dou por terminada uma jornada dura e desigual contra um cancro da mama que levou tanto de mim, mas que também me transformou, de uma forma quase mágica, na mulher que sou hoje.

Esta que vos escreve hoje não é, de todo, a mesma Vera que iniciou este blogue, no dia 8 de fevereiro de 2015, com o artigo

“…uma notícia que ninguém quer dar… nem receber!”, onde eu tentava, meio sem saber como, dar a notícia de que habitava em mim essa doença hostil.

Hoje sou esta Vera que nasceu de muitas camadas da Vera de ontem.

A doença nunca me definiu, nem nunca foi o centro da minha identidade. Transformou-me… mas sempre me recusei a permitir que me definisse. A maternidade, a arte e a capacidade de encontrar beleza mesmo no sofrimento ocuparam sempre um lugar muito maior.

A metáfora da borboleta nunca foi um recurso poético. Foi, desde o primeiro dia, a forma como organizei a minha visão da vida. Naquele momento em que, engasgada com uma realidade que jamais imaginaria viver, não soube como contar às minhas filhas — então com cinco e sete anos — que eu passaria por uma metamorfose total e absoluta, de dentro para fora e de fora para dentro.

Um livro nasceu desse engasgo. Tornou-se o meu mote, a minha ode, a minha forma de olhar para a vida, a certeza absoluta de que o meu desfecho — feliz — seria o mesmo ilustrado na última página daquele livro.

O casulo onde vivi nunca representou, para mim, uma prisão. Representou crescimento.

Cresci tanto que deixei de caber nele. Por isso criei um casulo maior, onde cabe não só a minha história de vida e a minha travessia, mas também as histórias de quem, com coragem, decide fazer da arte a sua forma de sentir e de se expressar.

Nasceu assim o Casulo Clube de Arte, este espaço que criei com toda a força da minha gratidão, onde ensino aquilo que sei sobre arte, mas não só. Ensino coragem, ensino vida, ensino empatia. Porque, no fundo, cá estamos nós neste mundo, num sopro de vida, num espaço de tempo já determinado, não apenas para sobreviver, mas para retirar das nossas experiências tudo aquilo que têm de mais bonito.

Este lugar, cheio de cor e de sentimentos, cresce na mesma medida do meu caminhar. E quantos já foram os passos, tantas vezes por caminhos tortuosos, que ajudaram a dar corpo e forma a este projeto que tem por sobrenome Gratidão. Foi através da arte, e de tudo o que ela representa para mim, que encontrei um lugar ao sol quando tudo ainda era escuridão.

Hoje, olhando para trás, consigo compreender que a minha grande obra talvez seja a capacidade de transformar experiências difíceis em algo que ajuda outras pessoas a sentirem-se menos sozinhas no mundo. Isso está no livro Mãe Borboleta, nos meus textos, na forma como ensino e sinto a arte.

E foi, também, através da perda, que nasceu esse Casulo.

Quando, sem saúde, portas se fecharam na minha vida profissional, foi nesta janela que voltei a vislumbrar o belo de ser útil e de pertencer. Quando costas me foram viradas, abri o peito à minha maior verdade: eu não sou o cancro que habitou o meu corpo. Sou muito mais do que aquilo que um corpo doente pode definir. A minha alma recusou-se a ajustar-se à pequenez dos lugares e das pessoas que jamais compreenderiam a minha história.

Por esse caminho perdi pedaços de mim. Fui perdendo, aos poucos. As minhas capacidades mudaram de lugar e tive de me reinventar muitas vezes. Bebi preconceito, descaso e incompreensão. Só quem veste esta pele poderá compreender e, por isso, perdoei, todas as vezes, as incompreensões maldosas com que fui confrontada. E foram muitas.

Mas das cinzas desses pedaços perdidos renasceram sempre capacidades que jamais pensei adquirir e que talvez nunca tivesse conhecido se não tivesse sido o cancro. A resiliência e a força que descobrimos quando apenas queremos sobreviver a uma guerra transformam-nos para sempre. Mudam quem somos, as nossas prioridades e a capacidade de nos amarmos incondicionalmente, porque, no final, somos este micromundo solitário dentro de um mundo gigante de vidas paralelas.

HYD.

Era a senha para entrar, pela última vez, no consultório número 32.

O hospital já não é o mesmo de há onze anos. Está renovado, mais claro, mais moderno. Apesar disso, a aura permanece igual: olhos tristes, corações pequenos de preocupação, dúvidas, medos, odores químicos que habitarão para sempre o meu inconsciente e dores silenciosamente sentidas.

Mas o consultório, hoje, tinha um cintilar diferente.

A Dra. Inês recebeu-me com o seu sorriso simpático de sempre.

“Nossa! A Vera está mais bonita!”

Foi assim que entrei. Sorri de volta, agradecida.

Ao meu lado sentou-se ele. Presença cativa na minha vida e no meu coração. Incondicional. Firme. Com a serenidade de quem atravessou tudo isto ao meu lado, sem esmorecer nem duvidar de que este dia chegaria e de que aquele continuaria a ser o seu lugar.

O Miki.

Sem chocolates nas mãos, apenas com aquilo que sempre foi o mais importante: a sua presença. Vital. Visceral.

Tive muitos anjos a guardar o meu sono. E, naquele consultório, estavam dois dos mais importantes.

A Dra. Inês não foi o primeiro anjo que cuidou de mim naquele hospital.

Ainda sem saber que aquele seria o dia da minha alta, senti uma saudade dolorida da Dra. Margarida, a médica que me acolheu quando entrei, pela primeira vez, no Hospital de São João.

Durante metade do meu tratamento caminhou comigo e, quando penso nela, não me recordo apenas dos exames, dos protocolos ou das decisões clínicas. Recordo-me, sobretudo, da forma como me fazia sentir.

No meio do caos, transmitia uma serenidade difícil de explicar. Havia competência, claro. Mas havia também humanidade. E, para quem acabava de ouvir a palavra “cancro”, isso fazia toda a diferença.

Há pessoas que passam pela nossa vida por um breve instante, mas deixam marcas que o tempo nunca consegue apagar.

Hoje, a Dra. Margarida não esteve ali para festejar comigo, como me prometeu no dia em que nos conhecemos.

Eu vestia uma t-shirt onde, em letras grandes, se lia a frase “Better Days Are Coming”. Ela sorriu ao lê-la. Naquele sorriso reconheceu a força com que eu tinha decidido enfrentar tudo o que estava para vir e respondeu-me, com uma convicção serena, que sim… dias melhores estavam a caminho.

Hoje, ao sair daquele consultório, percebi que ela tinha razão.

Os dias melhores chegaram.

Fica aqui a minha homenagem e a minha gratidão, lançadas ao universo, por esta médica tão importante na minha história, que também enfrentou esta doença hostil e partiu cedo demais, para iluminar outra constelação.

Obrigada, Dra. Margarida.

Hoje também é um pouco seu este dia.

Depois da Dra. Margarida, a Dra. Inês acolheu-me com o mesmo rigor, a mesma dedicação e uma enorme sensibilidade e humanidade. Deu continuidade ao caminho que a Dra. Margarida tinha iniciado e acompanhou-me até ao dia de hoje.

Desde setembro, quando ficou para trás o Tamoxifeno, as mudanças na minha vida e saúde foram notórias e hoje, curiosa e interessada, a Dra Inês quis saber como foi este percurso…

Sem enjoos matinais.

Metabolismo diferente. Menos fadiga

Os químicos que ‘seguravam’ os efeitos colaterais ficaram para trás, diminuindo consideravelmente as tomas diárias de comprimidos.

Menos inchaços, menos retenção de líquidos, menos peso.

O humor já não é oscilante, mesmo sem os químicos.

Os exames do costume estavam todos bem, mamografia, ecografia. Check!

Então ouvi as palavras que, durante tantos anos, imaginei sem nunca saber se algum dia chegariam.

Pronto, Vera. Continua agora o seu percurso e já não precisamos de nos voltar a ver. Não aqui. Não pela doença que teve.

Olhei para ela e perguntei, quase sem acreditar:

Isto é uma alta médica, Dra. Inês?

Um leve acenar de cabeça, acompanhado por um sorriso doce, confirmou aquilo que durante 4186 dias eu esperei ouvir.

E as gotas deste meu oceano particular teimaram em dar praia.

Passou um filme inteiro pela minha cabeça, em velocidade máxima. Cada dor. Cada medo. Cada perda. Cada comprimido que contou os meus dias e acabou por se transformar num conjunto frenético de anos de travessia. O amor que me foi oferecido, generosamente, pelas minhas pessoas queridas e cuidadoras. Os sorrisos e as lágrimas partilhadas. E, sobretudo, a certeza de que, afinal, os dias melhores chegariam.

Em 2019 escrevi:

“ESCREVER foi das coisas mais necessárias para mim enquanto estava a lutar pela vida… Quando olho para trás e me vejo naquela espiral de medo e dores, releio na memória a presença — mesmo que não fosse física — das pessoas que estavam verdadeiramente ao meu lado. Escrevendo, eu tornava tudo mais claro, para quem torcia pela minha saúde e para mim mesma. Era um olho gigante que me via de fora, analisando aqueles momentos e trazendo-me para uma realidade que, embora muito dura, era recheada de subtilezas, esperança e bons sentimentos.

ESCREVER A DOR, POR UM LADO, NO FUTURO, VAI FAZER-NOS LEMBRAR DO QUE SENTIMOS… MAS, NO MOMENTO EM QUE ESCREVEMOS, DIVIDIMOS COM O UNIVERSO O QUE VAI CÁ DENTRO… AMENIZANDO ESSAS MESMAS DORES E TORNANDO TUDO MAIS SUBJETIVO!”

Assim, sigo escrevendo o meu mundo. Nem tudo é publicado, mas tudo é profundamente sentido.

Sempre que publiquei, senti que havia um propósito: agradecer a quem caminhou/caminha comigo, fortalecer o caminho de quem trava a mesma batalha e oferecer esperança, boas energias, companhia e o amor de que tanto precisamos para atravessar dores imensuráveis.

Daqui para a frente, vai correr tudo como tem de correr… aprendi também a ter expectativas realistas -a vida continua imprevisível e tem uma estranha forma de nos conduzir exatamente para onde precisamos de chegar.

Hoje saio deste casulo, depois de 4186 dias. Descubro que ele nunca foi apenas uma metáfora de esperança. Foi o lugar onde aprendi a transformar dor em amor, medo em coragem e perda em propósito, o cancro passa a ser apenas um capítulo da minha história.

Agora é tempo de continuar a voar.

DIA DA ALTA (23 de julho de 2026)

Encontros e Despedidas

Milton Nascimento

Mande notícias do mundo de lá, diz quem fica
Me dê um abraço, venha me apertar, tô chegando
Coisa que gosto é poder partir sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar quando quero

Todos os dias é um vai e vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais

Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai, quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim chegar e partir

São só dois lados da mesma viagem
O trem que chega é o mesmo trem da partida
A hora do encontro é também despedida
A plataforma dessa estação é a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar, é a vida

A hora do encontro é também despedida
A plataforma dessa estação é a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar, é a vida