A Gentileza dos Pormenores


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A Gentileza dos Pormenores

Desde que iniciei os tratamentos de quimioterapia, sempre que conseguia, estava no meu atelier às voltas das tintas e dos pincéis…pintar é terapêutico, e devo à arte a minha paz interior no meio de um grande tsunami…Através da arte eu pude desconstruir e voltar a construir com serenidade os sentimentos menos bons que me batiam à porta vez em quando.

Criei um padrão terapêutico que, semana a semana, foi curando a minha alma em dor… assim, na semana do tratamento eu virava uma plantinha, jogada num canto da casa a amargar todo o ‘azedume’ dos tóxicos…uma fadiga sem fim, enjoos, dores em todos os lados, vontade de fazer nada e uma relação com a comida, bastante conturbada…minha alma perturbada, alucinada, com dores que jamais poderia explicar…tóxica, química…

Passada uma semana eu começava a ‘acordar’, passava a sentir de volta a minha pele sem dores, os sabores das comidas, os sons já não eram gritos e a visão, apesar de sempre turva, alcançava as cores…mas ainda assim era difícil alcançar uma nitidez mínima para conseguir pintar com perfeição…Desapeguei da perfeição… com as mãos trémulas, nenhuma linha era uma linha reta, então passei a pintar com o instinto, deixando só o coração ‘pintar’…

Tão gentis eram os pormenores daqueles traços…contavam-me histórias, dentro da história da Mãe Borboleta

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…era a minha própria história, misturada a dela…era catártico pintar estas pequenas histórias… traziam-me paz…deixavam-me serena.

A escolha da técnica, não foi bem uma escolha…a técnica da aguarela escolheu-me a mim, e eu apaixonei-me desde os primeiros traços que fiz quando comecei a fazer o curso de Belas Artes.

Apaixonei-me pela fluidez da tinta no papel, identifiquei-me com a personalidade da aguarela pela sua independência, pelo seu desapego e liberdade…quantas vezes me senti, EU, instrumento das tintas que com liberdade e autonomia criavam as obras que, tão ingenuamente, eu pensava serem minhas…

Estou orgulhosa deste trabalho…O objetivo principal dele foi cumprido a partir do momento em que verifico a serenidade das minhas filhas diante da grande tragédia que foi ver a mãe doente…

Estou orgulhosa porque ao criar as ilustrações eu estava a acarinhar a minha alma carente, e por isto nunca me senti sozinha…

Estou orgulhosa porque ao pintar eu viajei para dentro de mim mesma e descobri lugares nunca antes explorados, descobri coisas fantásticas, dei respostas a muitas perguntas que fazia desde a mais tenra idade, e consegui perdoar-me a mim mesma todos os ‘erros’ do passado…passei a vê-los não como erros, mas sim como ‘caminhos necessários’ para crescer enquanto Humano.

Estou orgulhosa porque ao abrir o livro vejo tanta cor, agora que a minha visão estabilizou, e consigo ver em cada escolha, e em cada traço, cada pormenor, sentimentos tão bons…e sempre foi o meu coração a ‘falar’…

…e que bom que o meu coração ganhou voz e forma! 🙂

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2 thoughts on “A Gentileza dos Pormenores

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