A Dor é uma Ofensa


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A dor parece uma ofensa à nossa integridade física

Clarice Lispector

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Não senti-me sozinha, embora estive efetivamente sozinha durante muito tempo, ao longo do tratamento…

Dar abertura aos amigos e familiares para que estes possam abraçar a nossa luta pela vida é importante, muito importante…essencial, eu diria!

Abrir a nossa vida e permitir que todos participem ativamente do processo não é tarefa fácil…há alguma acidez por este caminho, contudo, ainda assim é mais benéfico do que lesivo.

Quando decidi abrir a minha vida, a minha história de luta nas redes sociais, acabou por acontecer, naturalmente, uma selecção de amigos e familiares: aptos a acompanharem-me na luta, e não aptos.

Alguns amigos diante da notícia desapareceram como pó no vento, e nunca mais voltaram. Outros, que já andavam há muito ‘desaparecidos’ voltaram em grande forma, provando que a amizade verdadeira está acima do tempo e do esquecimento.

Eu compreendi! – Coube a mim somente isto!

Nem todas as pessoas estão preparadas para vivenciarem de perto tamanha provação…e realmente não é nada fácil lidar com este cenário, cada vez mais comum -mais perto de nós, é verdade…mas hostil e perigoso… o sofrimento (quando se gosta de verdade do outro) é inevitável, e o medo é constante…

No dia 8 de Setembro de 2015 fui operada para retirar de mim o tumor que me meteu nesta ‘embrulhada’, e o Facebook , neste mesmo dia em 2016, lembrou-me como fui acarinhada neste dia…e foi bom recordar as emoções que eu sentia, rever nas leituras das palavras que me foram dedicadas todo o meu medo, ansiedade…revisitei também a minha fé e a esperança que estavam ali, mesmo que por vezes com a chama a meio gás…Cada mensagem que lia era um reforço na minha energia…

…lembro de seguir em frente naquela maca fria, mãos frias… e um sorriso na cara, com a doce lembrança de não sentir-me sozinha…foi bom estar coberta com este manto de energia pura, carregada de positivismo, generosidade, solidariedade e amor!

Era um dia difícil…Eu estava tensa, triste (iria perder a mama, iria me sentir mutilada, diminuída, incompleta)…

Tudo começou a transformar-se quando as minhas manas decidiram entrar em cena…estando tão longe de mim, pouco poderiam fazer, mas elas deram a volta! Superaram as milhas de distância 🙂

…a sinergia que existe entre nós é algo inexplicável, elas sentem, com o jeito de irmã sentir, o dia em que preciso de mais colo, mais ombro, mais amor…e fazem pingar em mim, qual vacina, o antídoto para toda e qualquer tristeza e dúvida que houver:

VAI CORRER TUDO BEM E PONTO FINAL.

…diriam elas 🙂 …e eu acredito, SEMPRE! 😉

…sobre estas correntes de amor, lá estavam elas, minhas manas, no dia 8 de Setembro, iniciando uma linda corrente de amor e fé para mim…a começar por elas, um a um postou na sua capa (no facebook) a fotografia da ilustração do livro Mãe Borboleta! 😀

A imagem era a da Mãe Borboleta piscando, e para quem já conhece todos os pormenores da história, sabe bem que esta imagem quer dizer: “Está tudo bem!” ou “Vai ficar tudo bem!”.

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Centenas de pessoas, numa corrente linda e fofa, fizeram o mesmo! Gente de todos os lados do globo, que eu conheço ou não…repetiram o gesto que mudaria por completo a minha maneira de estar naquele momento doloroso e triste! Enviaram, desta forma genuína e adorável, a sua energia boa…’diziam’, cada vez que mudavam as suas fotografias, que estavam comigo, provando, assim que eu não estava sozinha, de todo!…

Tão importante este calor humano para um doente oncológico…sentimo-nos, naturalmente, sozinhos e ameaçados, acuados…a sensação agregada a doença é a mesma sensação de ter sido assaltado, com violência física, maltrato e humilhação…É como se fossemos assaltados todos os dias, e todos os dias perdemos algo importante para nós, e muitas destas perdas serão eternas.

Os médicos não dão conta de preencher os vazios que se criam dentro de nós…são técnicos demais, têm gente demais para cuidar, ligam o automático, usam o protocolo, chamam-nos por números e não pelos nomes…ficam sem tempo para cuidar também da nossa alma, que também está doente…

Caberá aos amigos, familiares, pessoas que partilham da mesma dor (porque sabem o quanto dói) esta linda função de Doutores da Alma…são tão importantes quanto os doutores que seguram as agulhas e os bisturis…

E por falar nisto… lá vou eu ao encontro da frieza das macas e o azedume dos bisturis, de novo…Na próxima terça-feira (13/09) serei mais uma vez intervencionada, na mama, com a esperança de ganhar mais qualidade nesta minha sobrevida…

Lá vou eu tentar contrariar o que um dos médicos da equipa que me cuida disse – com a mesma delicadeza de um ogre – sobre as dores constantes que sinto na mama reconstruída:

“Você tem duas hipóteses: aprende a conviver com a dor ou passa o resto da vida a tomar analgésico!”

Só não há plano B para este ser insensível, talvez porque a dor não seja na sua própria carne…Pra mim enquanto há vida, há esperança! …

Eu não aceitei mais este não como resposta! Procurei, investiguei… e encontrei um recurso, que até pode ser o último, até pode ser o único, mas jamais deixaria de tentar!

Eu sei o que é sentir dores que me arrebatam o corpo e a alma, diariamente…e digo:

…não é fácil!

Muitas vezes tive medo de enlouquecer, quando as dores ultrapassaram o nível do suportável!

Provavelmente nunca saberá o que é isto, a pessoa que, indecentemente, me propuser conviver com esta dor até o meu derradeiro dia de vida… BAH!

Quem já leu o meu artigo sobre a primeira cirurgia sabe que tipo de técnica de reconstrução da mama eu escolhi, foi a técnica que me certificou, da melhor forma, que tudo o que era necessário e imprescindível para mim estaria resguardado…

Quando sou questionada por mulheres que passam pelo mesmo processo, quando pedem-me conselhos, limito-me a dizer apenas que façam o mesmo exercício que eu fiz quando fui questionada sobre “como queres reconstruir a sua mama?”

Somos todas diferentes…cabe a nós conhecermo-nos (profundamente) para, só assim, fazer a escolha acertada…Há um mundo de procedimentos médicos por aí, não devemos nos contentar somente com as escolhas que os médicos fazem por nós, porque poderá não ser fiel ao nosso objetivo, que por si só já é secundário.

Sendo assim…

Li, me informei, perguntei a mim própria e ao meu corpo, ouvi o meu coração, entendi a minha alma, dei voz a cada poro meu…e…conhecedora de mim – que sou! Decidi, e muito bem decidido a técnica que me traria de volta alguma da minha feminilidade perdida…Salvei a minha pele e o mamilo, a mama toda por dentro, foi-se! E vieram partes do meu reto abdominal esquerdo para preencher o vazio que ficou…

Nunca me arrependi de nenhuma decisão! Todas as decisões foram tomadas em sã consciência, e eu soube desde sempre todos os prós e contras…

Dizia o cirurgião geral, dias antes da operação:

“Vais ficar linda de novo, nem vais dar conta das perdas, mas podem acontecer alguns azares, raramente acontecem, mas preciso falar sobre eles…”

Um dos ‘azares’ seria uma reação dos tecidos reconstruídos após as sessões de radioterapia, o nome ainda pouco me dizia, mas ouvi com atenção : FIBROSE!

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Pois bem! Aquilo que raramente poderia acontecer, aconteceu comigo…Segundo o cirurgião plástico, aquilo que ‘estragou’ o trabalho dele foi a dosagem altíssima de radioterapia a que fui exposta…A mama, reconstruída com músculos abdominais, logo depois das sessões de radioterapia, começou a enrijecer, causando muito desconforto…eu sentia uns nódulos, em dois quadrantes opostos, um muito grande, outro menor mas ainda mais incomodo pela localização: na altura do aro do sutiã. Estes nódulos eram tão rígidos quanto ossos, e a medida que o tempo passou só piorou…estes ‘nódulos’ colaram-se a pele e passaram a causarem-me dores enlouquecedoras.

Estes nódulos são as FIBROSES: um endurecimento dos tecidos, causado por uma acumulação de tecido cicatricial, que receberam alta dosagem de radiação e transformaram-se em quase pedra.

Durante quase um ano (que fará em novembro) depois da radioterapia, digo seguramente que não vivi UM dia sequer sem que não tenha sentido dor…aprendi a conviver com a dor constante que me deixava, as vezes, sem fôlego! Mas pensar neste cenário à longo prazo, para mim, era aterrador!

Fiz todos os tipos de tratamentos possíveis para amenizar estas dores, passaram por mim alguns anjos fisioterapeutas que tentaram de tudo, sem sucesso…algumas vezes a dor era tão forte e ‘pontiaguda’ que eu desfalecia…de dor…e dependendo do movimento que eu fazia com o braço, muitas vezes, pensei que a minha carne por dentro se rasgava.

Diante da minha dor as minhas pequeninas Gio e Juli, preocupadas, tentavam amenizar com massagens, beijinhos, cremes…e, sem compreender muito bem, um dia a Gio pediu que eu explicasse como era a minha dor, a única maneira que encontrei de explicar foi com uma analogia: “como se tivesse uma mão gigante e forte a apertar, constantemente, a carne da mamã por dentro…”

“Isso deve doer de verdade mamã!”

E mal sabia ela que não havia mesmo nenhuma palavra ou analogia que conseguisse explicar os dias de dores profundas que senti…

Eu continuo pintando o meu mundo com as mil cores que crio, o meu auto-retrato é uma estampa gigante de um sorriso sem fim, porque efetivamente eu sou feliz acima de todas as coisas, mas a água que misturo às tintas é a água que cai dos meus olhos quando o meu peito arde e ‘sangra’ por dentro.

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Faltam poucos dias para o início do fim…a esperança é o meu maior combustível nesta hora, e o medo me assusta, mas não vai me parar.

Vai correr tudo como tem que correr…já está escrito! 😉

É só isso

Não tem mais jeito

Acabou, boa sorte

Não tenho o que dizer

São só palavras

E o que eu sinto Não mudará

 

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4 thoughts on “A Dor é uma Ofensa

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