Um Caminho de Desapegos


mãe borboleta

Um mês pós cirurgia…É hora de fazer um balanço, em jeito de dar notícias! 😉

Nas consultas pré-operatórias, quando ouvi o médico a dizer: “O pior já passou…” (referindo ser a fase da quimioterapia como a pior), eu acreditei…

…Sim, porque eu sofri com muita força durante a quimioterapia…O que poderia ser pior? A dose cavalar de químicos matou-me por dentro levando com ela não só o tumor e tudo de ruim que ele trouxe para o meu corpo, mas também ‘pedaços’ saudáveis de mim…Foi duro…

Então antes da cirurgia eu tolerei a fase seguinte, sem grandes medos ou alterações no humor, acreditando que estava para vir uma fase dura, contudo, mais ‘instantânea’, comparando aos seis meses de quimioterapia… seis meses de uma ‘quase inactividade’ provocada pelos fortíssimos tóxicos que habitaram o meu organismo então…

A tensão de viver o dia da cirurgia, o não saber o que viria pela frente, e SE viria…o não saber o que iria encontrar no espelho, todo o nervosismo e ansiedade me fizeram questionar se o médico teria mesmo razão ao dizer que ‘o pior já passou’…

Nestes dias eu pensei tantas vezes: ‘o pior, afinal, nunca mais passa…’ …desesperador…

Senti-me num aquário todo fechado, com uma pequena abertura, por onde respirava um pouco (nunca o suficiente) e voltava para dentro d’água…Gerindo com dificuldade o oxigénio para me manter viva num ambiente que não era o meu…

Preferi acreditar de novo que nada neste caminho é fácil e que é bastante difícil graduar as fases, porque nenhuma é igual a outra, e em nenhuma delas eu fui poupada…O pior, afinal, é estar doente, e ponto!

Aquilo que se perde percorrendo este caminho vai deixando um rastro de destruição…sinto-me tantas vezes ‘bagunçada’, por dentro, por fora…por todo lado…Sobrevivo dia-a-dia, reorganizando-me, tentando colocar algumas coisas no seu devido lugar, embora muitas vezes é um trabalho em vão…muita coisa não volta a ser como era…

EU não sou a mesma desde que tudo isto começou…Eu precisei reinventar-me, usando as ‘armas’ que tenho agora…desapegando de mim, do que eu fui, por dentro e por fora…

…e, aprendendo a desapegar, CRESCI…e lembrei que no passado, por algumas vezes, eu já fazia, inconscientemente, um estágio de desapego…

Praticando o meu direito de liberdade, libertei…permiti que fosse embora tudo o que estava fora do lugar, mudei de lugar, de opinião, de profissão, perdoei pessoas do passado que me fizeram mal, deixando, assim, de assumir responsabilidades pelas decisões dos outros…desapeguei de coisas materiais e de histórias de amor inventadas, resumi a minha vida a nada desapegando de tudo e voltei a construir tudo do zero, mais de uma vez…

…eu ainda não sabia, mas estas foram fases cruciais na minha vida, foi assim que ganhei a liberdade de optar por aquilo que quero que fique e o que quero que vá embora, e foi assim que aprendi a renascer e a reconstruir-me…

E é disto que falo quando falo da minha decisão de permanecer viva…este caminho, resumidamente é um caminho de desapegos

Desde o início estou feliz com a minha decisão de viver, de continuar, mesmo sabendo de todas as perdas que viriam…arrumei isto dentro de mim pensando que as perdas são necessárias, fazendo uma analogia da doença com a minha vida, minha história até aqui…

Não renovamos, não renascemos se não nos permitimos perder…desapegar…

Eis que me encontro a fazer uma lista de desapegos provocados pela minha doença até então…e fiquei surpreendida! 🙂

Primeiro de tudo desapeguei de mim saudável, assumi a doença como um mal necessário, algo precisava mudar em mim, e desapeguei da pena que porventura poderia sentir de mim mesma, e, por isso nunca questionei-me: porque comigo?

Sem sentir pena de mim foi mais fácil vencer os obstáculos -com um sorriso no rosto, assumindo sempre que a batalha é árdua mas nunca maior do que a minha força para lutar.

Depois tratei de desapegar da imagem…e foi bastante difícil, admito! Despedi-me diariamente de mim no espelho, pouco a pouco fui me transformando numa imagem reflectida que sequer eu reconhecia, perdi e ganhei neste processo, perdi cabelos e pelos que me emolduravam, ganhei quilos que me deixaram redonda, perdi a cor da minha pele e o brilho dos olhos… lá se foram todas as curvas do meu corpo…todas não! Ficou a mais importante: o sorriso nunca foi 🙂 Embora tenha derramado muitas lágrimas às custas desta ‘nova eu provisória’.

Desapeguei do meu orgulho e permiti-me ser ajudada, assumi que precisava de ajuda, em todos os aspectos, e acolhi com humildade e gratidão toda ajuda que puderam dar-me …e não foi fácil assumir que não conseguia cuidar da minha casa, das minhas filhas, do meu marido, da minha vida, e até de mim mesma…desapeguei e despedi-me de mim proactiva e permiti-me ser ‘uma planta’, vivendo com o mínimo necessário, sobrevivendo com muita dificuldade à chacina das células. Este desapego trouxe de bónus o desapego à opinião dos outros sobre mim e sobre a minha vida, descobri que é muito importante ser fiel e honesta comigo, independente da opinião que as pessoas possam ter de mim…

Ninguém sabe a dor e a delícia de ser o que sou, por isso mesmo não é possível comparar casos, medir esforços e maneiras de se ultrapassar obstáculos…Isto não é um concurso de quem faz mais, consegue mais, sorri mais, luta mais…

Já ouvi tantas pessoas, admiradas com a minha luta, dizendo que sou uma força da natureza, que sou única, que nunca viu lutadora igual…a minha resposta é sempre a mesma para estas abordagens: eu vou sempre preferir ser alegre do que ser triste! …é uma opção… 😀 …não tenho nada de especial, não sou especial, eu só quero e gosto de viver!

Qualquer pessoa com esta premissa lutaria como eu, é a lei da sobrevivência, é humano lutar para sobreviver…e no meio do processo de luta esta pessoa aproveitaria cada oportunidade que a vida traz para crescer… e o final feliz teria que ser dado sempre como certo, porque ser optimista é fundamental neste processo!

E ainda sobre o desapego ao orgulho permiti-me sofrer, porque sou feliz mesmo estando doente, mas não sorri o tempo todo…chorei lágrimas que poderiam matar a sede a muita gente (e ainda choro). Permiti-me ir abaixo muitas vezes, até porque nada poderia fazer contra mais um dos efeitos colaterais da quimioterapia: a depressão e a oscilação de humor.

Chorei, fiquei zangada por tudo e por nada, fiz birra, fiquei triste…a cabeça fez um nó! Porque por maior que seja a nossa força interior, lutar diariamente, mexer tudo por dentro tantas vezes, cansa…e é preciso reconhecer que também isto é um mal necessário, aceitar-se mesmo tendo ódio de si mesmo, por vezes, e saber que é alheio a nossa vontade e capacidade de dar a volta por cima…aceitar que esta dor emocional é efeito de todo o processo ajuda a perceber o quão humanos somos e como tal, frágeis e susceptíveis. Falar, escrever sobre as nossas ‘neuras’ faz bem, mas nem sempre é suficiente…

Permito-me experienciar os meus sentimentos – todos eles! – e aceito-os exatamente da forma como eles se expressam em mim, sei que tenho sempre capacidade de regulá-los, contudo, muitas vezes não o fiz sozinha…pedi ajuda…

…é preciso deixar de querer parecer ser forte o tempo todo, deixar a arrogância de lado, desapegar da premissa ‘eu posso tudo, consigo tudo!’ – e pedir ajuda! Porque, de fato, não conseguimos lutar esta luta estando sozinhos, muito menos sendo vaidosos e orgulhosos.

Exercitei tanto o desapego durante o processo todo que na fase pós cirurgia, inconscientemente, desapeguei da dor…Inevitáveis dores depois de viver uma grande transformação num bloco operatório, durante quase seis horas de cirurgia, onde deram voltas e voltas com pedaços de mim.

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Fiz uma mastectomia radical com conservação da pele e do mamilo, reconstrução imediata. Optei por não colocar prótese artificial, por isso vieram buscar músculo ao meu abdómen. A minha axila foi esvaziada por causa da metástase nos gânglios, oito gânglios foram retirados. Tenho quatro novas cicatrizes no corpo e tenho tentado desapegar da ‘perfeição’ de um corpo sem cicatrizes. Sinto-me perfeitamente linda e viva, mas sinceramente ainda não me habituei às cicatrizes…

Os exames às ‘peças’ retiradas (mama e gânglios) trouxeram o resultado da luta na fase da quimioterapia: na mama 0% de matéria tumoral, dos oito gânglios retirados, dois ainda vieram com vestígios de células cancerosas, o que me deu uma ‘passagem’ direta para a fase da radioterapia…a luta ainda não acabou!

Tenho o braço direito ‘empenado’ por causa do esvaziamento axilar, inicio esta semana vinte sessões de fisioterapia e só depois iniciarei a radioterapia: vinte e cinco sessões.

Já fui às consultas com os médicos da radioterapia e da fisioterapia…a minha inevitável pergunta sempre vem: Vai doer? Vou sofrer?

Ambos disseram o mesmo: “o pior já passou!”

Será? 😉

…vou seguir desapegando também desta certeza, acreditando na MINHA certeza: de que por pior que seja, eu vou ultrapassar! 😀

 

 

 

Pratica o desapego.

É preciso saber quando uma etapa chega ao final.

Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver.

Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos.

Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos que já se acabaram. As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas possam ir embora.

Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se.

Ninguém joga nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos. Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diz a ti mesmo que o que passou, jamais voltará.

Lembra-te de que houve uma época em que podias viver sem aquilo – nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade.

Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na tua vida.

Fecha a porta, muda o disco, limpa a casa, sacode a poeira.

Fernando Pessoa

 

 

de·sa·pe·go |ê| de·sa·pe·go |ê|

substantivo masculino

  1. Facilidade em deixar aquilo a que se tinha apego.
  2. Indiferença, desinteresse.

Palavras relacionadas:

desapegado, desinteresse, desapegar, desapegamento, desprendimento, despego, desapropriação

 

de·sa·pe·gar de·sa·pe·garConjugarConjugar

verbo transitivo

  1. Despegar.
  2. Fazerperderaafeiçãoa.

verbo pronominal

  1. Perderaafeiçãoa.
  2. Perderointeresse, oempenhopor.
  3. Largar; soltar-se; desagarrar-se.

“desapego”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/DLPO/desapego [consultado em 08-10-2015].

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14 thoughts on “Um Caminho de Desapegos

  1. Querida Vera, sao muitos anos sem contato. Fiquei feliz em reencontrar voce e mais feliz ainda de saber que voce e uma pessoa tao forte. Que tem uma família linda que te ama. Obrigado por contar como foi essa sua vitoria. Desejo muitas felicidades para voce e sua família. Espero que possamos nos encontrar qualquer dia e reunir as nossas famílias. Voce e abençoada.

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  4. O temporal que assolou a tua vida, deu-te o poder de conseguires concentrar as forças do universo, em ti – de uma forma sofrida , mas muito bela ! Vais conseguir Vera – é só mais uma batalha , que será vencida como as outras o foram ! Beijinhos de carinho

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  5. O que podemos dizer? O que podemos fazer? Apenas que por mais não acreditamos somos capazes de suportar mais do que aquilo que imaginamos, por esse motivo eu creio que mais essa fase você vai querer lutar e conseguir. Bj

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