Discursos de Lançamento – Drª Joana Mesquita (Psicóloga Clínica)


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Memoria

 

Amar o perdido

Deixa confundido

Este coração.

 

Nada pode o olvido

Contra o sem sentido

Apelo do Não

 

As coisas tangíveis

Tornam-se insensíveis

À palma da mão.

 

Mas as coisas findas

muito mais que lindas,

Essas ficarão.

 

Carlos Drummond de Andrade

 

A Vera é, como todos saberão…

 

…uma pessoa com uma grande sensibilidade, resiliência e capacidade de expressão emocional. Consegue surpreender todos os que a rodeiam das mais variadas formas. Os últimos anos foram muito difíceis para a Vera… para a sua família. Hoje estamos aqui precisamente porque a Vera conseguiu transformar um momento tao difícil em algo que é extremamente construtivo e positivo para as crianças, e para todos nós. A Vera tem formação em educação de infância, interessa-se de forma genuína pelas varias facetas da infância e, como certamente saberão, é destemida. Sabe que não devemos esconder ou criar cenários falsos, como uma espécie de penso rápido, somente para tranquilizar a criança naquele momento. A Vera também sabe que tão pouco se deverá deixar de falar com as crianças acerca da pessoa que partiu e de quem elas tanto gostavam. Não se deve fingir que essa pessoa tao querida, afinal nem existiu nas suas vidas, como tentativa de minorar o seu sofrimento. Não. É precisamente o oposto. Deve se falar sobre a vida e sobre a partida da pessoa querida. A Vera também sabe que a forma como o adulto lida com a morte, e vai construindo a sua narrativa, vai influenciar muito a forma como a criança vai fazendo o seu luto. Foi isso que a Vera fez. Criou uma história para as suas filhas, para que estas pudessem ir lidando um pouco melhor com a dor da perda, que a Vera também estava a sentir, e fossem fazendo o luto.

A verdade é que a autora, desde que as filhas nasceram, sempre lhes falou no vovô estrelinha, seu pai, que tinha partido há alguns anos. Contando as histórias de como ele se tinha transformado numa estrela brilhante e partilhando com a Giovana e Juliana as experiencias vividas com o seu pai, para que as memorias nunca se perdessem, passando de geração em geração. Dessa forma, ela elaborava o seu próprio luto e garantia que as suas próprias memórias também não se perderiam. E…também é assim com o livro: “A vovó Estrelinha”, razão pela qual todos nós estamos aqui hoje.

A autora garante que as memorias das netas da vovó não se perdem. O livro tem a personagem principal “Vovó Estrelinha”, mas tb tem o avô, “Vovô Estrelinha“ que já partiu há mais tempo e que recebe a Vovó num céu magnifico, que passou a estar para sempre brilhante!

Com esta obra a Vera fala precisamente sobre a vida. E fala sobre a vida, mesmo quando fala da partida da avó. Uma vovó Brilhante, luminosa! Vovó Anie! A Vovó Estrelinha. Eu conheci bem de perto esta avó, portanto ler esta obra foi como se estivesse a observar o que realmente se passava tantas vezes na vida desta avó e destas netas, Margarida, Giovana, Juliana.

De uma forma encantadora e mágica a autora Vera Ximenes chega a todas as crianças que passam pela perda de alguém querido. Uma forma de guardar a vida de quem já partiu, nas suas memórias. A pessoa, pode já não estar fisicamente presente, mas ficam todas as vivências, experiências, diálogos e aconchegos. Essa é a forma de perpetuar a vida dessa pessoa.

Através da leitura do livro, podemos ver a forma como a Vera perdura essas memórias, outrora experiências vividas. Essas memórias são agora materializadas através das palavras tao sabiamente escritas.

Ficarão para sempre guardadas lembranças de, e passo a citar: (in Vovó estrelinha)

– “apanhar folhas secas, pedrinhas, conchas”- onde se retém a alegria na busca dos pequenos e tao grandes momentos de vida;

– do afeto da “manta macia e perfumada”

– do poder quebrar as regras, de vez em quando e de forma tao saudável “Bolachas, gomas e doces fora de horas” ;

– do entusiasmo por cada momento partilhado em família-”1º concurso de brigadeiros da escola”.

 

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Fotografia: Daniel Ribau

 

Tudo isto ficará para sempre guardado na memória destas e de tantas outras netas que tiveram o privilégio de ter nas suas vidas uma avó tao fantástica como esta. Ela existiu e existirá sempre nas suas memórias. Uma avó amiga que adorava “ser criança”, como tantas vezes me disse. Que vibrava com cada vitória das suas netas e entristecia quando as netas perdiam o sorriso. Mas de facto esta avó era especial, conseguia sempre missões impossíveis… Conseguia sempre fazer com que as netas voltassem a sorrir.

Esta avó é real, existiu e continua a existir no coração das suas queridas netas e de toda a família.

Este livro é fantástico porque contribui para que a memoria desta e de outras avós ganhe ainda mais força. É a materialização de um grande amor. Com esta obra, Vera Ximenes poderá ajudar outras crianças e suas famílias que passam por um processo idêntico de luto.

A autora, através da obra “Vovó Estrelinha”, poderá ter um papel de grande importância junto de crianças e famílias, para que possam a lidar melhor com a perda de alguém significativo nas suas vidas.

A morte é inevitável e faz parte do ciclo vital, algo desconhecido que nos inquieta. Muitas vezes há a tendência por parte dos adultos para não falar na morte, como tentativa de proteção da criança e no fundo da sua própria exposição emocional face à criança. Dever-se-á explicar à criança sempre o que aconteceu, e de acordo com o estadio de desenvolvimento afetivo e cognitivo da criança, esta terá o seu entendimento acerca do conceito de morte.

Falar com a criança acerca de quem partiu, falar sobre que atividades e experiências tiveram juntos, sobre o que sente mais falta, é uma forma de ajudar a criança a fazer o luto. Não se deverá deixar de falar da vida dessa pessoa, das saudades que se tem e da tristeza que por vezes se sente… Deve ser permitido a criança expressar-se sobre estas vivências. E desta forma, a criança vai ultrapassando as suas dificuldades face a perda e formando novos equilíbrios, precisamente formados pelas memórias das experiências e do afeto com essa pessoa.

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É precisamente a razão pela qual este livro é tao precioso e pode constituir uma ferramenta muito útil no processo de elaboração do luto.

O luto vai se fazendo e aquela angústia, tristeza profunda e dilacerante, lentamente vai dando lugar às lembranças, memórias dos momentos vividos, do afeto sentido… Até que aquela pessoa ficará dentro de nós, internalizada. A avó internalizada. As crianças podem passar a ter verbalizações como estas: “A avó dizia… fazia… lembras-te das gargalhadas dela? E quando abanava aa cabeça para a tristeza ir embora?” A avó viverá para sempre no pensamento de todas as netas! Quando a memória é eterna, a vida eterna será.

 

 

 

 

Momento de beleza vivido

Compreendi, então, que a vida não é uma sonata que,

para realizar a sua beleza, tem de ser tocada até o fim.

Dei-me conta, ao contrário,

de que a vida é um álbum de minissonatas.

Cada momento de beleza vivido e amado,

por efêmero que seja,

é uma experiência completa que está destinada à eternidade.

Um único momento de beleza e amor justifica a vida inteira.

Memória

“Os números dizem que já se passou muito tempo.

Mas a memória ignora: é como se tivesse acontecido ontem.

Assim é: o que a memória ama fica eterno.

E eternidade não é o sem-fim.

Eternidade é o tempo quando o longe fica perto.”

 

In Concertos para Corpo e alma.

Rubem Alves

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