…uma notícia que ninguém quer dar…nem receber!


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…Então…Como é que se dá uma notícia destas?Estive refletindo durante tanto tempo sobre quais palavras usar, como abordar, quais serão os termos certos…Até que, no meio desta reflexão, lembrei-me do médico, o da Clínica da Mama…que me examinou, que analisou as respostas nos exames – sobre aquele corpo estranho que se fazia presente dentro de mim…e passei a lembrar dos pormenores do dia em que EU recebi a notícia…muito sinceramente achei que o médico não teve jeitinho nenhum para dar esta notícia 🙂Muitas vezes eu revi na memória, como um filme, este momento: o médico sentado na sua cadeira, um envelope na mão, do outro lado da mesa eu e o Miki (num só) de mãos dadas, mãos frias…eu fazia-lhe carinho na mão com o dedo polegar, ele não despregava o olho do envelope e na outra mão tinha um pacotinho de chocolate.

Cheguei a conclusão que não era só falta de jeito do médico, era desconforto por ter que dar uma notícia deste calibre…também ele estava desconfortável naquela posição…

Depois de intermináveis minutos lendo o relatório da biopsia, ele levantou os olhos…olhava pra mim…olhava para o Miki…silêncio…olhava para o papel…foram mais alguns destes intermináveis minutos…
Até que ouvi um som: “tsc”…encolhe os ombros…

“Bem, Vera…”…”tsc”…encolhe os ombros…pega no papel, faz uma ‘revisão’, relê o relatório…Olha nos meus olhos…

Diz: “Bem Vera, o que você tem…é um…’tumorzinho’ maligno” (…)

 (……)

…e continuou a falar, pouco, mas o que ele falou eu já não ouvi…já tinha ouvido o suficiente para começar a organizar tudo aquilo que estava sentindo…organizar sentimentos, calibrar forças, seguir ultrapassando etapas, uma de cada vez…Eu apertei a mão do Miki – congelado, estático, catatónico, incrédulo…Olhamo-nos. Tinha os olhos vermelhos… e com os olhos eu disse: “vai passar amor…” …ele entendeu…reagiu…começou a enfiar todos os chocolates que tinha na mão, na boca 🙂
Enquanto ele falava com o médico (sobre o que não lembro, não ouvi, não sei)…no meio daquele furacão eu consegui me divertir observando-o…  🙂  … mil bolinhas de chocolate dentro da boca e uma lágrima no canto do olho…amei-o, ainda mais 🙂
…E assim…contando uma nova história do meu amor (porque sim, eu continuo falando de amor, do amor que eu vivo todos os dias com o meu príncipe), não sei se repararam…mas dei uma notícia: o ‘tumorzinho’ é real e faz parte de mim, por enquanto… e realmente esta não é uma notícia fácil de se dar, entendo o meu médico…e vou desculpá-lo pelos intermináveis minutos que me fez esperar 🙂
Enquanto ainda estávamos sentados à frente do médico, meus olhos encheram de lágrimas, mas não caíram…busquei toda a minha fortaleza interior e fiz algumas poucas perguntas ao médico, para saber até onde deveria calibrar as minhas forças, queria saber o que viria, quais seriam os tratamentos, quanto eu iria sofrer?
Com pausas enormes o médico ia dizendo quais eram os procedimentos…cada vez que abria a boca eu sentia uma facada, as borboletas do estômago estavam loucas, imparáveis, agitadas…
“Quimioterapia… (…) …8 sessões, a cada 21 dias…”
(pausa…respira…facada…arde…dói…borboletas…engole o choro!)
“Cirurgia para retirar o tumor…”
(pausa…respira…facada…arde…dói…borboletas…engole o choro!)
“Radioterapia depois de 1 mês da operação… 30 sessões diárias…”
(pausa…respira…facada…arde…dói…borboletas…engole o choro!)
“Cirurgia reconstrutiva só depois que tudo isto terminar…”
“É serviço completo não é Doutor? É para sofrer com força né?”
Ele só abanou a cabeça…
“O meu cabelo também vai cair?”
Ele só abanou a cabeça…
“Ok! Vamos a isto!”
Saí do consultório com um temporal de pensamentos, nuvens pesadíssimas de medo, insegurança, raiva…me segurei até chegar ao carro…lá explodi…chorei com toda a minha força, libertei com as lágrimas toda aquela dor que me apertava o peito…
Senti-me acuada como deve sentir-se um ratinho num beco sem saída sendo perseguido por um gato…
Senti-me um nada…pó…pequena, minúscula…uma sensação horrível de impotência, de mãos e pés atados…não há nada a fazer senão limpar as lágrimas e seguir queimando as etapas que viriam…
E foi mesmo isto que eu fiz…
Deixei secar as lágrimas e distraí-me com os meus pensamentos olhando a paisagem que me aparecia pela janela durante a viagem do Porto para Aveiro, enquanto isso movia tudo por dentro, adaptando o meu corpo e a minha mente para esta minha nova realidade…ser um doente oncológico não é fácil…o sofrimento é quase sobre humano, os tratamentos são agressivos, não há como passar por este caminho sem sofrer, mas o caminho se faz caminhando e parada não vou a lugar algum…
Um passo de cada vez, começava assim a minha caminhada…
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4 thoughts on “…uma notícia que ninguém quer dar…nem receber!

  1. Pingback: Notícias & Chocolates | Mãe Borboleta

  2. Olá Vera! Sou a tia da Maria Francisca, colega da sua filha. Queria também aqui deixar algumas palavras de apoio, destinadas não só a si como a todos os que a rodeiam – um problema afeta muito mais do que um indivíduo quando esse consegue tocar os outros através das suas experiências e histórias. Tal como a Vera me tocou a mim: são estes casos que me deixam com mais vontade de me dedicar aos outros. Um dia, espero conseguir salvar alguém como cirurgiã, para um sorriso de alívio conseguir criar muitos de felicidade. Na realidade, não acho justo tanto sofrimento quando tudo um dia simplesmente desaparece, quando os vestígios se deterioram na passagem do tempo e na indiferença das gerações. Contudo, a dor é uma constante da vida e a vida é um momento. Com o seu momento, está a formar muitos outros. A sua história com certeza tocará inúmeras outras. Estou-lhe eternamente grata por isso, por partilhar o que sente e por deixar aos outros uma amostra de uma realidade diferente (tratar os outros como humanos só é possível quando nos é permitido pormo-nos no lugar de outrem). Espero que, com o apoio daqueles que não só fazem parte da sua vida como a constituem, consiga superar as adversidades. Quero que saiba que admiro imenso a sua coragem.
    Muitos beijinhos. E força!
    Ana Beatriz

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    • Olá Ana Beatriz!
      Obrigada pelo seu contato tão querido… 🙂
      A vantagem da coragem que reúno para me expor neste blog, além de inspirar outras ‘mães borboletas’, é que vou encontrando por este caminho outras pessoas que pensam como eu… e fico feliz ao pensar que afinal a humanidade não está ‘perdida’, e que ainda há muitas pessoas do bem, que respiram gentileza e se preocupam francamente o outro…Não estamos sozinhas nesta empreitada Ana Beatriz! 😉
      E a partir de hoje ficarei na torcida para que, como cirurgiã, consiga espalhar sorrisos e alívios…
      Realmente é um desperdício de vida estarmos nesta passagem tão breve a sofrer tanto…mas acredito que nenhum sofrimento é em vão, viver é como montar um puzzle gigante… e no fim tudo se encaixa na perfeição…eu andava a desperdiçar vida e não sabia…foi preciso sofrer e estar ‘privada’ de viver com normalidade para perceber justamente que não devemos desperdiçar nem um segundo de vida…
      Um beijinho muito grande!

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      • Obrigada pela resposta sincera!
        Junto envio um poema que escrevi. Escrever faz bem à alma e faz ainda melhor partilhá-lo.

        Lua triste

        Olhei a lua…
        Estava triste
        Branca… pálida…
        Despida… quase nua
        Uma lua sem luar
        Sem olhar
        Sem nada desejar
        Uma lua à espera
        De se encontrar.
        Uma lua alta
        Que tudo vê
        Tão triste… porquê?
        Sei que tudo passará…
        Terá de novo um luar
        Um acordar
        Um acreditar
        Sentirá que existe
        E deixará de ser…
        Uma lua triste.

        Uma grande beijinho

        Liked by 1 person

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