Discursos de Lançamento – Vera Ximenes


16830536_1044792565631391_2044358332_nNada é tão certo na vida quanto é a morte…

 

Eu ainda me lembro quando perdi o meu avô paterno…eu era tão pequenina, ficava entre os adultos ansiosos, desconfortáveis…olhava de baixo para cima –gigantes com lágrimas nos olhos, e eu não percebia…

 

Foi um dia especial porque estavam todos os primos juntos, e brincamos, e sorrimos, inocentes, ingénuos, sem saber quão profundo era aquele momento…

 

…o lanchinho foi pão de forma com queijo e Fanta Laranja, e se eu fechar os olhos, ainda hoje, consigo saber o sabor e o odor desta minha primeira grande perda…a Fanta Laranja, para mim, desde então significou a saudade que passei a sentir do meu avô que tanto me fazia rir…

 

Não me explicaram como se faz para transformar a tristeza da ausência em saudade…e não foi desta vez que eu aprendi…

 

Precisei perder mais…perdi meus bisavós maternos, a minha avó paterna, o meu melhor amigo na adolescência, tios queridos, o meu pai, o meu primo irmão, o meu avô materno…perdi a minha segunda mãe, Roseane… e desconfio, que ainda hoje, não aprendi a perder…

 

(…)

 

…mas com tantas perdas aprendi a lidar com as emoções dos dramas inevitáveis da vida…e ao vivê-los na primeira pessoa, precisei também a aprender a ensinar às minhas filhas a lidarem com eles…

…e aprendi a colorir…aprendi a pintar com aguarela…aprendi a pintar o meu mundo com as cores que eu escolho…aprendi a olhar a volta de mim adivinhando os nomes das cores que as coisas têm:

 

-Aquela árvore…a sua copa, por dentro, é verde sapo misturado com azul ultramarino, por fora é o verde inglês claro com amarelo ocre dourado misturado (só uma gotinha!) …porque é ali que bate a luz do sol, que por sua vez, de acordo com o horário (entre as 17 e as 18) já não é a mistura do amarelo limão com o amarelo cádmio escuro, mas sim uma mistura frenética de várias nuances de magenta misturada ao alaranjado cádmio, violeta cobalto e um toque de azul cerúleo…

 

 

Parece paradoxal falar da morte quando o que vemos no álbum ilustrado Vovó Estrelinha são imagens tão cheias de vida e cor…e a história em si é feliz!

É a narrativa bem-disposta das várias memórias, pintadas de mil cores, vividas por uma avó e as suas netas…

 

E tendo aprendido a pintar, e a contar histórias, aprendi a ensinar as minhas filhas a RESILIÊNCIA, ensino-as, todos os dias, o quão bom é estamos vivos, vivendo intensamente todas as emoções que sentimos (todas elas!), e assim, também elas, “aprendem” a normalidade das coisas, resolvendo, naquelas cabeças pequeninas, os grandes dilemas da vida.

 

 

(…eu ainda não vos contei isto, mas até hoje não consigo beber Fanta Laranja, porque não aprendi, quando deveria, a conviver com a tristeza da ausência… lidei muito mal com a saudade, e a Fanta Laranja passou a ter um gosto muito amargo, é deste amargo que eu nunca quis que elas experimentassem)

 

E quem disse que a morte tem que ser escura, soturna, feia?

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Há beleza em todas as fases da vida… eu vejo a beleza da vida, sem filtros, sem pudor, sem tabus…permito-me viver todo amor e dissabor que recebo, porque é isto que me torna HUMANA!

 

E quem diz que a morte é o fim está redondamente enganado…Somos, todos nós, fragmentos de memórias…Somos essa colcha de retalhos, minuciosamente costurada, pelas pessoas que acompanham a nossa trajetória e só está morto quem está esquecido…

 

Era, então, o ano de 2015, e a Vovó Ane andava há já algum tempo a lutar pela sua vida…

 

…uma doença devastadora instalou-se levando muito dela, permanecendo intactas a sua vontade de viver, a sua esperança no futuro, a sua perseverança e o amor incondicional pelas suas netas!

 

Nunca falhou missões…cumpriu todos os combinados que fez com as netas, esteve sempre presente!…mas estava indo embora…aos poucos…

 

Como explicar a ausência de uma avó tão presente?

 

Escrevi em silêncio a história…guardei-a na gaveta e desejei nunca ter que tirá-la de lá…

 

…mas em dezembro de 2015 arranquei-a, para meu profundo desgosto, da gaveta…e contando uma história de encantar tentei ensinar às meninas a transformarem a tristeza da perda em saudade…

 

Contando uma história de encantar ensinei as minhas filhas que a nossa matéria será sempre feita de saudade… a nossa matéria é feita das memórias que guardaremos para sempre de um bom momento vivido…

 

Contando uma história de encantar ensinei as minhas filhas que seremos eternos sempre que habitarmos a memória de alguém…

 

E assim a Vovó Ane desapareceu dos nossos abraços…

 

E assim nasceu a Vovó Estrelinha…

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Vovó Estrelinha é muito real! Não vive somente nos livros aqui impressos nesta livraria…permanecerá para sempre viva nas nossas memórias, nas memórias da infância feliz das minhas filhas…

 

Será sempre uma pessoa insubstituível…

 

Sim…Existem Pessoas insubstituíveis…

 

Vovó Ane foi base, estrutura, núcleo…árvore de troncos largos e muitos galhos… Mil olhos, mil mãos e um coração gigante…

Um abraço cheio de coisa boa, um abraço de corpo inteiro (e alma), um lugar que dava vontade de ficar… Ao seu lado tudo era possível, o NÃO nunca foi resposta que se lhe desse, o talvez nunca existiu…

 

A resiliência e a perseverança personificada, com cara, corpo, coração…

 

 

Lidar com a perda não é fácil para ninguém, mas podemos tentar fazer com que seja sereno e natural…porque morrer é da natureza humana… deixar de existir, não!

 

Pessoas especiais permanecem… flutuam ao longo da nossa vida nas memórias que ficam. E por isso permanecem para sempre vivas!

 

Vovó Estrelinha, hoje, deixa de ser a história que usei como ferramenta para ensinar às minhas filhas a lidarem com as suas emoções na perda, passa a ser uma história de todos nós, para todos nós…porque cedo ou tarde vamos todos vivenciar está grande aventura que é virar estrela…

 

…mas até lá vamos celebrar a vida!

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Vamos celebrar a vida destes avós, que ainda não são estrelas, mas que iluminam de forma fantástica a vida dos seus netos! Que sabem, como ninguém, ler os corações dos netos, adivinhando ser a infância o ponto de partida para a felicidade ao longo da vida…

 

 

Dedico de todo coração está história a estas pessoas fantásticas…

Dedico ao querido Vovô João Carlos, que permanece a sua grande missão, confiada pela Vovó Ane, de cuidar de todos nós…E tem cuidado muito bem!

Dedico aos filhos Miguel e Sara, participando com eles de toda a tristeza e saudade por ter perdido uma mãe tão especial.

Dedico às netas mais fantásticas de toda a via láctea: Margarida, Giovana e Juliana.

Dedico à toda família da Roseane que pôde usufruir de todo o amor que ela sempre soube (tão bem) dedicar a todos!

 

Dedico especialmente a minha mãe, e a minha avó…que costuraram -e costuram ainda- está linda colcha de retalhos que é a memória da minha vida!

 

Dedico e Homenageio com carinho os avós que aqui estão presentes, pedindo a todos que lhes dediquem uma calorosa salva de palmas.

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Obrigada!

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