Um Ano sem Quimio!


Um ano sem quimio…365 dias, contados nos dedos, para ter a certeza de que se foram – aqueles dias de terror, puro terror!…

É verdade…o caminho é para frente, o que passou -passou, quem vive de passado é museu…E eu até sou perita em enterrar o passado que já não me diz nada, que não muda o meu presente ou influenciará o futuro…Preciso sempre de mais ‘espaço’ para guardar o que realmente interessa, por isso simplesmente APAGO, deleto! 😉 

Contudo este é um passado ainda tão fresco, ainda tão presente que não dá!

Eu lembro destes dias e sinto um furacão de sentimentos rodopiando cá dentro…um carrossel intenso de emoções – paradoxais… tenho orgulho pela coragem que tive de viver estes dias da forma que escolhi, com positivismo e esperança, mas ainda sinto medo de algum dia voltar a vivê-los, sinto angústia e alívio, vejo a minha transformação e encho o peito de alegria, mas a transformação trouxe perdas…algumas irreversíveis, e então encho os olhos de tristeza. Percebo-me viva e me conformo com tudo o que perdi e com a luta que ainda não terminou…

Conto os dias sem quimio porque os dias com ela foram os dias mais traumatizantes da minha vida, então cada dia sem os tóxicos – que me salvaram, sim, é verdade! – é uma festa, uma alegria!

Depois que tudo passou ainda gosto, de vez em quando, de revisitar o passado, rever na memória alguns destes momentos de uma luta dolorosa e quase insana. Relembrar estes momentos faz-me reviver algumas dores que senti, mas sobretudo gosto de ouvir-me dizendo: Consegui! 😀

 Gosto de me visitar no meu primeiro dia de quimio, quando ainda não sabia o que era quimioterapia. Não sabia o que iria sentir, pensar, ver ou ouvir naquele lugar.

Eu era um ratinho acuado, destes de laboratório, nem sabe ao que vai, mas vai… 🙂 E como um zombe, a flutuar, sem sentir as pernas, entrei naquele espaço cinzento com pessoas cinzentas. Eu –ainda colorida – nem imaginava que dali há alguns dias, também seria um deles.

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Eu não sabia o que era um cateter, nem para que servia…Logo no primeiro dia de tratamento – ainda sem cateter – descobri o porquê de se instalar um ‘robozinho’ na clavícula para distribuir o químico pelo meu corpo; a minha primeira dose de quimio foi dada nas veias periféricas, no braço direito – tenho as veias ressecadas, para sempre.

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Que poder daquele líquido que entrou pelo meu corpo adentro, destruindo tudo o que via pela frente…felizmente também destruiu aquilo que me queria matar.

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A sala de tratamentos cheira a álcool, éter, químicos misturados… é enjoativo. É uma sala gigante, subdividida em quatro ou cinco salas…Uma das salas é para os doentes muito debilitados, tem camas – frequentei este lugar duas vezes, e realmente não poderia ter sido de outra forma, eu sentia-me morta! Nas outras salas comuns, cadeiras, muitas cadeiras (são muito confortáveis), suportes de medicação, máquinas doseadoras, saquinhos com todos os tipos de quimioterapia que viriam a salvar (ou não) aquelas pessoas cinzentas…

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Enfermeiros, muitos! Nem sempre simpáticos, ligados no automático…fazendo o seu trabalho como um funcionário numa linha de produção, raramente via-se lhes os dentes.

Não se pode falar alto, nem estar acompanhado, as deslocações são difíceis quando se está atrelado a tantos tubos. Ficamos nauseabundos, parecemos zombies…Drogados, bêbados…Ouve-se, vez por outra, roncos, gemidos de dor, chiados de quem já está farto daquilo.

As refeições podem ser feitas ali, comida de hospital ou comida de fora…é complicado comer durante o tratamento, tanto enjôo… mas ao mesmo tempo uma fome de leão. A minha última refeição naquele recinto foi a única coisa que consegui me imaginar comendo sem vomitar: Happy Meal! 😀

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Quase ninguém fala, o que mais ouvimos é o som das máquinas a apitarem –a pedirem por mais químicos. Há pessoas que passam lá o dia, doze horas! Eu ficava entre quatro e cinco horas, e já saia dali farta. De vez em quando apareciam uns ‘companheiros de quimio’ mais animados, faladores – contavam e recontavam o número de tumores que tiveram durante a vida, os locais, os órgão atingidos, narravam como é difícil a sobrevida…bla bla bla…

Eu não…eu queria falar de vida, de futuro, de banalidades, de lenços para enfeitar a careca, das minhas filhas… 🙂

O pessimismo e a falta de esperança reinavam sempre nos vizinhos, passei a levar fones de ouvido 🙂

Eu vivia a minha dor na pele, reconhecia todas as dores e dissabores que eles narravam…por isso permiti-me o egoísmo…pelo menos naquele momento tão duro. 😉

É muito fácil sentir-se deprimido naquele lugar, não é fácil lidar com a dor do outro, sobretudo quando sabemos perfeitamente o quanto dói.

Até que se viva tal experiência, nunca saberemos o tamanho da erosão causada por esta doença tão hostil, tampouco o tamanho da força e determinação que podemos alcançar para ultrapassar dias tão difíceis.

Durante os tratamentos de quimio eu sentia que vivia num lugar ameaçador, nunca me senti tão doente tentando salvar a minha vida! Era tudo estranho… e apesar da esperança, sempre presente, a angústia e o medo alastravam-se, penetravam cada poro meu, fazendo-me pensar (muitas vezes) que eu não conseguiria sobreviver à tanta agressividade do tratamento. A dor do corpo não era menor nem maior do que a dor emocional que senti, eu ardi por dentro e por fora e até agora estou sem saber porque não pirei 🙂

Ok! Mas tá tudo bem agora…sem contabilizar as perdas…contando só com as minhas readaptações 😉

Este ‘aniversário sem quimio’ calhou com o primeiro exame à mama depois da cirurgia e radioterapia…nem preciso dizer a tensão, a angustia, o medo enquanto esperava (no vestiário 2) para ser chamada pelo médico. Ecografia e mamografia.

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Foram os minutos mais gigantescos que já vivi, devia ser proibido fazer-nos esperar tanto! 😛

Eu ali sentada naquele vestiário minúsculo, tremi, chorei, limpei as lágrimas, milhares de borboletas bateram as asas ao mesmo tempo no meu estômago, e quando finalmente fui vista (por dentro) senti um alívio tão grande que pelo caminho para casa imaginei que meu carro era um dos Pôneis coloridos da Juju 😀 E eu flutuei com um sorriso tolo na cara até à casa.

Feliz, aliviada relembrava da última frase do médico…

A frase do médico reverberava em mim como música boa:

 

“Da minha parte está tudo bem!”

Desde então sigo, assim… feliz…vivendo um dia de cada vez, dando valor ao que realmente importa…

…apesar de todos os pesares – que ainda existem…
…porque ainda não estou a 100%…
…continuo a juntar os pedacinhos de mim que foram despedaçados…
…continuo no processo de reconstrução…  

Contudo, neste dia de angustia, que terminou em alívio, fomos comemorar a vida como se se tratasse de um aniversário 😀

O meu Príncipe Sapinho levou-nos para jantar fora, e sorrisos não faltaram…Felizes comemoramos em família mais esta vitória 😉

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Tudo corre bem no reino da Mãe Borboleta 😉

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4 thoughts on “Um Ano sem Quimio!

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