Memórias de Uma Mama


mamar

Eu e os meus delírios pré operatórios…:)

Estive a pensar na possibilidade de cada parte do nosso corpo ter uma memória…Tão interessante pensar nas memórias que guardariam 🙂

Inevitável para o meu peito seria, nesta hora de despedidas, relembrar quantas vezes ele alimentou as pessoas mais importantes da minha vida…

A memória maternal não poderia estar fora destas “memórias de uma mama”… 🙂

Alimentou de VIDA aos três filhos que alimentei, e mesmo que momentaneamente, criei um laço com o Vasquinho (o nosso priminho querido) para sempre, porque quando ele precisou de alimento encontrou-o aqui no meu peito e a visão de amamentar um filho cola na memória, com a cola mais potente do mercado…jamais me veria livre destas imagens, nem se quisesse! E nunca conseguirei ver o Vasquinho de forma diferente, é meu filho também 🙂

Os laços que criamos com quem alimentamos ao peito tornam-se eternos, intransferíveis, intocáveis!

São as memórias mais ternas e sublimes que nós, mães, poderemos um dia relembrar da infância dos nossos filhos…É sinergia num mundo paralelo de afeto puro e duro…

Uma áurea branca e cintilante… sentada na minha cadeira de baloiço, filha ao peito, a cor era maioritariamente o rosa, a música calma e serena, o cheiro era de bebê, o nosso calor aquecia o ambiente… assim era o cenário quando alimentava as minhas filhas…eu estava sempre a cantarolar, e a baloiçar…sempre feliz e sorrindo…não conseguia desgrudar os olhos delas…e quando os nossos olhos se cruzavam era mágico 🙂 Falávamos tanto com os nossos olhos, quantas juras de amor eu fiz, e tantas recebi…

E tanto o meu peito direito teria para relembrar… Milhares de vezes foi acariciado por mãozinhas pequeninas, qual agradecimento, pelo alimento fornecido…quantas vezes ele adivinhou a fome dos filhos e tratou de tudo para que não faltasse nada a eles, mesmo que estes estivessem distantes de mim, o peito sentia com o seu jeito de peito sentir, que alguém estava faminto e precisando de alimento…Uma fábrica perfeita, com sensor de última geração que ‘adivinhava’ a necessidade do consumidor. 🙂

É hora de agradecer, nesta hora de despedidas, tudo o que ele fez pelos meus filhos…

A memória carnal não poderia estar fora destas “memórias de uma mama”… 🙂

O meu peito foi fonte de prazeres absolutos e memoráveis pra mim …Alimentou de amor, de desejo, de fantasia a minha vida sexual…Forneceu meios para que eu viajasse para lugares fantásticos de puro prazer e sentimentos…tudo junto e misturado alimentando o meu ‘corpo carnal’ e as suas necessidades tão humanas…

O amor da minha vida…meu Miki… :..) Tratou do meu peito sempre tão bem, as memórias –se houvessem- da mama, seriam as melhores memórias guardadas…memórias de um homem delicado, cuidadoso, apaixonado…um lorde! 🙂 Me derrete de elogios, fala bem do meu corpo todo, mas tem especial carinho pela mama…como não poderia pertencer a estas memórias?

É hora de agradecer, nesta hora de despedidas, tudo o que ele fez por mim e pelo amor da minha vida…

A memória fraternal não poderia estar fora destas “memórias de uma mama”… 🙂

Tantas vezes tive as minhas irmãs deitadas no peito, cheias de saudade ou de medo, ou de tristeza ou alegria!

Num abraço tenho-as sempre no peito, são menores que eu… 😛 Não muito, mas é aqui que elas vêm parar quando precisam do meu calor e amor…A memória do som que fica entre nós num abraço, o TUM TUM sempre acelerado, descontrolado, cheio de amor fraterno, saudade, paixão avassaladora… sim!!!…somos sim apaixonadas umas pelas outras…sentimos um amor incondicional que não se explica, só sente…e é tão bom!

Tantas vezes o meu peito sentiu lágrimas escorrerem, e tantas vezes sentiu o movimento frenético das gargalhadas e sorrisos…Tantos choros de alegria ou tristeza o meu peito recebeu das minhas irmãs, tantas histórias de amor incondicional, entrega, cumplicidade ele teria para contar…tantos segredos ouviu entre suspiros e cochichos, lágrimas e sorrisos…Quantas vezes elas deitaram-se no meu peito…o cheiro dos seus cabelos ainda estariam frescos nesta memória…e quantas vezes adormecemos assim… :..)

É hora de agradecer, nesta hora de despedidas, tudo o que ele fez pelas minhas irmãs…

E assim, fazendo um balanço das memórias que o meu peito teria, eu continuo fazendo um balanço de tudo o que ganhei e perdi nesta aventura insana e dolorosa…

Já perdi tanto, e continuo perdendo…Mas cada perda traz para mim um ganho maior…tem sido assim desde o início…Esta doença deu-me a capacidade de transformar tudo, e cada perda, pra mim, significa um ganho, porque eu ganhei poderes especiais de transformar todo mal em bem…E no fim de cada reflexão que faço, mesmo que não entendam, eu acabo por agradecer a estadia do meu tumor em mim…não consigo falar mal dele, tampouco ter sentimentos negativos, mesmo que me tenha trazido tanta dor e sofrimento (e continua trazendo), o meu saldo –sempre positivo – me impede de o fazer…

Eu estava doente antes do tumor chegar em minha vida, ele chegou para dar um basta nisto tudo, de forma muito dramática, é verdade!!! Mas de fato ele tem curado a minha alma num processo paralelo de amor e cura… Adoro pensar e dizer que este ‘bichinho’, apesar de todos os pesares, é meu amigo!

Nas vésperas da minha cirurgia, que irá tirar de vez qualquer vestígio de que tive aqui um hóspede, sinto-me sensível, triste, ansiosa e com medo, inevitavelmente saudosa…continuo me permitindo chorar e rir disto tudo, continuo fiel e honesta comigo mesma e apesar de todo o drama que envolve uma cirurgia de seis horas eu não vislumbro outro fim, que não seja o meu final feliz…Mais uma batalha sendo vencida nesta guerra pela minha saúde e pela vida.

Neste dia sairei do bloco operatório sem a minha mama direita, perco também a capacidade de voltar a ser mãe, e de voltar a amamentar…As lágrimas serão inevitáveis, de saudade – é este o mote maior deste blog – A MATERNIDADE!

Ficará por aqui a capacidade de gerar um filho, mas jamais de amar um filho… tenho amor aqui dentro para um milhão de filhos, mesmo que não sejam gerados em mim… :..)

E assim eu continuo seguindo o caminho que escolhi…feliz apesar de todos os pesares…porque não estou sozinha…Tenho centenas de pessoas comigo, na mesma sintonia, mesma energia e luz…Entrarei e sairei da cirurgia cercada de pessoas que me querem bem… :..)

Beijarei com carinho cada uma delas, e agradecerei a companhia e a ajuda neste caminhar…

E como prometido é devido:

A mama vai, eu fico! 😀

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7 thoughts on “Memórias de Uma Mama

  1. Vera, desde ontem que tenho pensado tanto em si. Até doí. Gostaria de estar presente e de oferecer o meu abraço. Sei o quanto um abraço é poderoso, transmite serenidade, força. Rezei por si. Falei ao Pai, confio Nele. Mas a nossa história está escrita, há que encará-la com naturalidade, não com medo, com frustração ou revolta. Não nascemos por acaso, temos uma missão a cumprir, pense nisso 🙂

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  2. Posso imaginar o que vai nessa cabeça e nesse peito … um turbilhão de sentimentos contraditórios que desesperam a Vera. Não tive nenhum cancro até agora mas tenho de viver até aos fins do meus dias com uma “fera” que tenta derrubar-me todos os dias. Desde que se apoderou de mim nunca mais fui a mesma e tive de enfrentar o toiro pelos cornos para me reerguer. Há dias em que é complicado. Mas a “fera” não é mais forte do que eu, não pode!
    A Vera é uma mulher de armas. Não precisa de sorte, precisa sim de força, de amor e de muita energia positiva, porque neste momento os seus fluxos energéticos estão desequilibrados. E não pense muito na sua “dita”, não lhe dê demasiado tempo de antena.
    Apesar de ficar sem um peito, pense que se trate de um mal necessário (nada acontece por acaso), o verdadeiro peito continua lá, juntinho ao seu coração, à sua alma. Continuará a dar amor e sobretudo continuará a ser amada.
    Sabe Vera, desculpe se eu sou talvez demasiada pragmática mas a vida secou o meu lado mais sonhador… tive de me erguer sozinha para não me afundar e isso tornou-me dura, infelizmente 😦
    Tal como a Vera deixei de poder ter filhos. A minha “fera” comanda tudo o que faço e tudo o que tenho e tive de ser dura com a minha João quando lhe expliquei que era um assunto encerrado. Depois negaram-me “gentilmente”a possibilidade de ser mãe adotiva só porque tomo medicação para domar a minha “fera” … Parece que não encaixava nos “parâmetros” de mãe … A vida é assim!
    Quero que saiba Vera que admiro muito pessoas como você, tal como todas as que carregam consigo histórias de vida.
    Nesta altura culminante não tenha medo de ter medo, chore tudo o que tiver de chorar, grite o que tiver de gritar, porque a nossa vida tem de ser vivida ao máximo, cada minuto é importante, e se tiver que fazer uma “pequena” tolice, força.
    Depois deixe tudo nas mãos de Deus Pai. Não vale a pena nos angustiarmos muito, não temos o poder para mudar o futuro. Agradecemos por aquilo que já vivemos e por termos alguém que nos ama… o resto Deus Pai trata.
    Vou rezar por si.

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  3. Relembrei tantos momentos únicos, com o teu texto divino ! Consegues realmente chegar ao amago da alma, da forma como és tão genuína a escrever.
    Como dizes, realmente ganhás-te poderes especiais para transformar todo o mal em bem, e tens uma relação especial com o teu tumor, mas finalmente chegou o momento da estadia dele no teu corpo acabar ! Faz o luto dele !
    Mais uma batalha será vencida Vera !
    Vai correr tudo bem, estamos a torcer !
    100000000000000……..beijinhos de boa sorte

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  4. Belo texto, gostei muito de ler.
    Nós “estaremos” lá consigo durante a cirurgia para a apoiar, lembre-se do bilhete que a Carolina e o António lhe deixaram no 2º ano da creche, lembre-se do seu namorado António, que ainda diz que é seu namorado.
    Enfim, lembre-se das coisas boas que estão para trás e naquilo de bom que aí vem.

    Estaremos sempre consigo.
    Um beijinho nosso

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