…sobre o número oito


sobre o #8

2 + 2 + 2 + 2 = 8 = 4V’s de Vitória! 😊💕 A nossa primeira grande Vitória em Família! 💙💚💛💜

…E lá se foi o número OITO!

(…)

(Foi impossível escrever esta frase sem chorar… :..)

Fechou-se o ciclo…O último ciclo da primeira batalha… o ‘processo’ de renascer, apesar de não estar totalmente concluído, vai com algum avanço…

É hora de fazer um balanço, em jeito de ‘dar notícias’ 😉

Foi uma luta favorável, ganhei muito mais do que perdi…

Ganhei beijos que pareciam jamais terminar da Juliana;

Ganhei carinho na careca todas as noites da Giovana;

Ganhei elogios, cuidado, dedicação, amor incondicional do amor da minha vida…

E apesar de ter sentido todos os sintomas, não teve um dia sequer que eu não tenha sorrido com o corpo todo… 🙂

… eu despedi-me, por agora, de cada uma das dores que me atormentaram, despedi-me dos desmaios, da fraqueza, da fadiga, dos sonhos alucinantes, do sono profundo e da insónia, das confusões mentais, da falta de memória, dos sentidos baralhados, do desconforto de ser eu mesma – a lagarta – no espelho.

Nesta altura estou um caco! Mil pedacinhos de mim espalhados pelo Universo…

…Irreconhecível…

um caco

Estou desbotada, transparente, minhas veias quase saltam pra fora da pele fina – estão cinzentas, o coração as vezes parece que vai arrebentar, tal é o esforço que faz (o pobrezinho) para manter a máquina funcionando, mesmo que ‘à meia bomba’…estou inchada, pesada, tenho que usar óculos porque já não enxergo, estou careca…os cabelinhos esforçam-se para nascer, nascem fracos, intoxicados, cinzentos, finos…tenho uma dúzia de pêlos nas sobrancelhas, três pêlos nas pestanas, e mais nada!

Não tenho pêlos em mais lado nenhum…Alguns fazem falta, outros não 🙂

Os pêlos do nariz fazem muita falta, nunca pensei! 🙂 São filtros…Os pêlos dos olhos também, e não é só esteticamente, meus olhos estão totalmente expostos, os pêlos protegem das impurezas externas, a sobrancelha ‘segura’ os micro pingos de suor da testa…Tenho os olhos e o nariz facilmente irritáveis…

O meu rosto perdeu a moldura…Ganhou a forma de um smile 🙂 …redonda, amarela, dois pontos negros, um parentese.

Eu estou VIVA! 😀

E mesmo assim não houve um dia sequer que não tenha sido elogiada pelo Miki :..)

E eu jamais poderia fechar este ciclo sem falar de AMOR!

Eu jamais poderia fechar este ciclo sem falar do meu Miki, e do grande marido que ele foi (e é! 🙂 ) desempenhando um papel fundamental no processo de cura…

Ele é o amor da minha vida… 🙂

Ele esteve ao meu lado o tempo todo, esteve ‘doente’ também, porque esta é uma doença que arrasta todos à volta, ninguém fica imune…tudo muda na dinâmica familiar, é uma rotina baseada em sintomas, datas dos tratamentos e no estado de espírito do doente…eu diria que quem acompanha de tão perto um doente oncológico precisa ser tão, ou mais, forte do que o próprio…esta pessoa não sofre com os sintomas, mas sofre com a ausência deles…muito mais fácil seria se pudéssemos dividir as nossas dores com quem amamos…

Quantas lágrimas eu vi rolar na sua carinha…quanto esforço para manter tudo com uma ‘normalidade’ aparente…

… ele virou mãe e pai, muitas vezes…se desdobrou em tarefas domésticas sozinho (nós costumamos dividir todas as tarefas em casa), mesmo depois de ter trabalhado o dia inteiro…quantas vezes adormeceu, exausto, no sofá…

Ainda pior: ter que conviver com a sombra da morte da pessoa que ama…aterrador…

Ele foi um guerreiro ao meu lado, incansável, dedicado, obstinado, generoso…tudo o que pôde fez para que eu estivesse sempre confortável…aguentou as minhas reclamações, neuras e oscilações de humor…alimentou-me, deu-me banho, carregou-me, secou muitas das minhas lágrimas…

Durante todo o processo fomos UM! E eu joguei as minhas mãos para o céu…agradeci ao Universo porque conspirou ao meu favor quando colocou na minha história um homem íntegro, dedicado, apaixonado…e que nunca vai desistir, tal como eu, do nosso final feliz!

OBRIGADA MEU AMOR!

Forever In Love

E se ainda se lembram, eu iniciei este percurso, de abrir a minha vida e a minha história nesta fase da vida ‘menos boa’, dando a notícia ‘que ninguém quer dar’…Iniciei este caminho falando de amor, porque se não fosse ele eu provavelmente já não estaria aqui escrevendo…

Contei-vos a deliciosa maneira de amar incondicionalmente uma pessoa, mesmo recebendo uma notícia aterradora…eu não sei como consegui sorrir naquela hora, mas eu sorri sim! 🙂 …achei linda a maneira como ele extravasou as emoções: com bolinhas de chocolate na boca, muitas delas… 🙂

A minha história é esta porque é permeada de amor -eu não saberia viver diferente- não sei amar pela metade… transpiro, respiro, invisto, durmo e acordo, produzo, falo, luto e a base é sempre a mesma: AMOR!

… e nunca permaneço sem a sua presença…

Já fui embora algumas vezes, dos lugares onde não o sentia a pulsar…porque definitivamente, nada vale a pena sem AMOR e a vida é um sopro…dura tão pouco quanto um dentinho-de-leão …Aquela florzinha generosa, que mesmo morta espalha o seu amor ao Universo permitindo que o vento leve as suas sementinhas…

Eu filtro todo o desamor que tente tocar-me e transformo tudo à volta…sou muitas vezes mal interpretada…muitas pessoas ainda não estão preparadas para a bondade sem interesse, para a solidariedade genuína, para a generosidade e a gentileza.

Tem tanta gente armada até aos dentes, lutando para sobreviver sem amor… e a vida é tão simples…é uma matemática perfeita, um puzzle gigante…no fim tudo se encaixa na perfeição e se houver amor tudo fica mais fácil, no mínimo, mais bonito e prazeroso…

Muitas pessoas contentam-se com pouco, trabalham durante horas, abdicam dos companheiros, dos filhos, família, amigos… para ficarem ‘ricos’…. e são tão ‘pobres’ do básico essencial, contentam-se com amores pela metade, ou amam por dois, três, ou amam sozinhos…Que desperdício de vida! Que pena!

“Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria”

Olhem bem para o lugar que eu ocupo agora…eu estou muito longe de ‘casa’… eu viajei milhas de distância para estar ao lado do amor da minha vida…

Eu abri mão de uma vida ‘construída’ ao pormenor, e trabalhei muito ao longo da vida para conquistar tudo o que conquistei, eu fiz das tripas coração para me sentir estável na vida, mas nada material me fez sentir confortável, muito menos as pessoas que passaram pelo meu coração…e eu sempre tive uma força muito grande a mexer-se, desconfortável, aqui dentro, faltou AMOR… e eu precisei encontrar o amor da minha vida, o meu príncipe encantado…e não hesitei em escolher o meu futuro quando o que estava em causa era a minha tão sonhada história de amor… e todos os caminhos que percorri me trouxeram até aqui…nada foi por acaso nesta história e todas as peças se encaixaram na perfeição!

Não posso dizer que não doeu…Não posso dizer que este foi um caminho fácil de se caminhar…

Não Foi! Não é!

Eu tive que abrir mão de anos de trabalho e de conquistas materiais, de investimento numa profissão que eu amava…eu abri mão de uma carreira em ascensão numa escola (Saci) que transborda amor e que nunca me esqueceu e nunca me fechou portas…

Mas ainda pior:

Olhar pra trás, no aeroporto, e ver os olhos marejados dos meus pais e das minhas irmãs dizendo adeus com o coração preso à garganta…definitivamente foi dos piores momentos da minha vida…

Minha família deu-me grandes provas de amor ao longo da vida, esta foi a maior delas: deixar-me ir…ver-me a escapulir por entre os dedos, sem sequer ter uma data para voltar… não é fácil estar longe quando se ama tanto…

Mas esta é a minha base, a minha escola…foi ali que aprendi tudo o que sei sobre Ser o que Sou hoje…Foi ali que eu aprendi tudo sobre o amor…e todas as formas de amar…

Quando cá cheguei eu senti –me um peixinho fora d’água… demorei para perceber a ‘logística’, do país e das pessoas, sofri…penei…chorei…(re) comecei do zero, tudo o que eu tinha cabia em três malas e uma caixa…

Eu tinha o básico essencial, e já não precisava de mais nada para estar confortável:

O amor da minha vida estava ao meu lado, lutando comigo, caminhando passo-a-passo, me amando na medida que eu precisava para permanecer aqui…

E até hoje, quase dez anos depois, eu digo-lhe:

‘Eu te dou uma prova de amor por dia, assim que tu acordas e olhas para o lado…se eu estou ao teu lado, se permaneço aqui, é porque te amo mesmo muito!’

Porque não é fácil estar longe de ‘casa’, da sua história, da sua base, dos seus amigos de infância, da família, da raíz…

Sozinha, num país ‘estranho’, eu mal conseguia entender o que me falavam…Eu experimentei uma solidão profunda, tive que mergulhar por mares nunca dantes navegados dentro de mim, foi um processo doloroso, visceral, mas permaneci obstinada ao lado do homem que escolhi envelhecer ao lado.

Eu permaneço porque AMO, e sou AMADA! E o nosso amor já se tornou visível, palpável, duas vezes, e demos-lhes os nomes mais lindos do mundo: GIOVANA E JULIANA!

E mais um amor palpável viria pelo caminho, não fosse a confusão em que fui me meter com o cancro 🙂

Il N’est Jamais Trop Tard… 😉

 

Pois é…Falei tanto sobre amor que já me esquecia que cancro é o tema…

É? Será? 🙂

Sinceramente? Eu sempre falei de amor neste lugar…contei histórias (algumas de terror, é verdade 😛 ) sobre um tratamento lixado, sobre uma doença lixada…listei sintomas, mostrei como lidei com todo este drama…imprimi aqui a minha RESILIÊNCIA; TRANSFORMEI-ME de dentro para fora e de fora para dentro; provei que sou PERSEVERANTE e que desistir nunca esteve nos meus planos; transformei o meu drama em OPORTUNIDADE de crescer, evoluir; tive FORÇA de leão faminto para lidar com todos os dissabores; a acompanhou cada passo que eu dei e muitos deles eram em areia movediça; lutei cada luta com CORAGEM de guerreira samurai… e nunca, mas mesmo NUNCA, me faltou

ESPERANÇA

no futuro…a esperança me permitiu sonhar, fazer planos à longo prazo, tão longo que já me vi avó, cuidando com carinho dos netinhos 🙂

pés descalços

A esperança era aquela que permeava todas as palavras que definiram o meu trajeto até aqui… a esperança era a ponte que me ligava diretamente à uma realidade futura cheia de AMOR, de filhos à volta da lareira no Natal, de viagens com descobertas incríveis, de trabalho com prazer e reciprocidade, de carro grande pra carregar todo mundo dentro e mais meia dúzia de malas, netos correndo pela sala, piqueniques no Jardim Oudinot, dias inteiros na praia…Running pela cidade sorrindo para as pessoas que passam por mim, cinemas com pipocas, reuniões de família, aplaudir o pôr-do sol na varanda de casa, organizar gavetas ao pormenor, festejar cada aniversário, comemorar cada vitória com balões coloridos, comer um gelado dentro do carro todas as sextas (mesmo no inverno)…

…e cadeiras de baloiço…Duas… :…) Uma ao lado da outra, e de mãos dadas, não saber onde eu começo e onde termina o Miki… reviver, na memória, mil vezes a nossa história, rir e chorar mil vezes lembrando tudo o que passou até ali…chamar-lhe Meu Velho! Beijá-lo como se fosse a primeira vez e permanecer ao seu lado, provando todos os dias que o amo!

Butterfly Fly Away

As minhas asinhas ainda não estão prontas para o vôo rasante que tenho sonhado todos os dias, estou a espera que sequem… 😉 Assim que estiverem prontas voarei bem alto observando cada pormenor à minha volta…neste passeio espero encontrar cada mão amiga que ajudou-me a seguir por estas estradas tão tortuosas, e nesta altura espero encontrar uma palavra que defina toda a gratidão que sinto por todo o amor que recebi…entregarei esta palavra, um beijinho e seguirei meu vôo feliz eternamente grata… 😀

Apesar de não ter as asinhas prontas para voar, no meio da semana, já fui lindamente acordada por uma fada da primavera, que se vestiu e produziu com o cuidado e o esmero de uma fada real…Ela é a Fada da Primavera, mas se a chamarem Juju ela atende 😀

Chegou ao meu quarto às oito da manhã, com um vestido cheio de flores, uma guirlanda de flores no cabelo, cheirava a cerejas 🙂 …deu-me beijinhos de borboleta (abrir e fechar os olhos fazendo com que as pestanas encostem na bochecha) e com uma voz muito doce falou:

“Vamos lá borboletaaaa…está na hora de acordar…eu sou a fada da primavera e o meu trabalho é acordar as borboletas…” 🙂

fada da primavera

Preciso dizer que acordei com um sorriso nos lábios e uma lágrima no canto do olho? :.)

Impossível não atender ao pedido de uma fadinha tão generosa…Foi assim que eu acordei do meu último sono químico…e como recompensa fui para a cozinha preparar um café da manhã especial: panquecas com pó de estrelas! 😉

panquecas com pó de estrelas

Tudo corre bem no Reino da Mãe Borboleta 🙂

Esta batalha esta ganha, mas ainda há muito pelo que lutar…Eu continuarei seguindo o caminho que escolhi…FELIZ!…Porque não estou sozinha! 😉

…E com pózinhos de pirlimpimpim, a história da quimioterapia chegou ao fim! 😀

es·pe·ran·ça (esperar + -ança)

substantivo feminino

  1. Disposição do espírito que induz a esperar que uma coisa se há-de realizar ou suceder.
  2. Esperam, expectativa.
  3. Coisa que se espera.
  4. Confiança.

“esperança”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/esperança [consultado em 25-07-2015].

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4 thoughts on “…sobre o número oito

  1. Pingback: Pormenores – A Chuva | Mãe Borboleta

  2. Lindo texto! Estamos muito felizes por ter chegado ao fim da primeira batalha. Que venham as outras, porque temos a certeza que vai vencer a guerra. Se precisar temos 2 guerreiros prontos a ajudar (ou 4 se for necessário).
    Beijinhos dos gémeos António e Carolina e pais

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    • 🙂 Eu também estou super feliz queridos Berganos!!!
      E não hesitarei em pedir ajudinha de dois adoráveis guerreirinhos para me ajudarem nas próximas batalhas 🙂 🙂
      Um beijo na família toda! E o meu carinho SEMPRE!!!

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  3. …uma verdadeira história de um amor mesmo verdadeiro!!!!!! Linda Vera! Fiquei com a lágrima no canto do olho, como naqueles filmes de domingo à tarde!… : ) beijinho grande! Depois desta confusão toda acabar, temos de combinar um lanchinho! :))))))

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