…sobre o número quatro


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…E lá se foi o número QUATRO!
Fecha-se um ciclo para outro se abrir…e assim eu CONTINUO o ‘processo’ de renascer…
É hora de fazer um balanço, em jeito de ‘dar notícias’ 😉

CRUZES!!! 😦

É isso!!! Hoje só me apetece dizer isto! Assim mesmo! Em caixa alta, aos berros, gritando e esperneando como uma menina mimada… 😛

Foi duro… Duríssimo… 😦

E já que eu estou aqui pra falar, vou falar, e muito! 😛

Sintomas iguais aos anteriores – intensificados!

Debilidade crescente – a todo vapor…

Células sendo chacinadas por todo o corpo, qualquer célula! Boa, má, ‘assim assim’..sem preconceitos (ainda bem! sou intolerante ao preconceito 🙂 )

Estive quase duas semanas no meu casulo…amargando, literalmente, uma má onda que me fez derramar muitas lágrimas, de dor, de terror, de mau humor, de tudo e mais um pouco.

Mas como sempre, se estou cá para contar, sobrevivi… 🙂

E ainda bem!!! Não perdia o dia da mãe com minhas pimpolhas por nada!!!
Tive dois dias especiais: o domingo em família e a segunda-feira na escolinha…

Pela primeira vez pude usufruir deste dia com minhas filhas, com a calma e o respeito que elas merecem… E foi mágico…tanto para mim quanto para elas! Que grande OPORTUNIDADE eu tive de experimentar e degustar estes dois dias dedicados a mim…

No dia seguinte, cheia de energia e vontade de viver, fui às compras com a Juju… Coloquei-a no carrinho de compras e lá fomos nós, felizes! Cantarolando, rindo, dando beijinhos e carinhos gratuitos.. 🙂

Recebi tantos olhares desde que saí de casa que cheguei a pensar que estava famosa (rindo de mim mesma) 😛 …mas a minha fama era o meu lencinho na cabeça… :/


Nesta altura passei a usar mais o lencinho, uso o que me dá na telha! O que tenho vontade, e deu-me para os lenços neste dia…

Um dos olhares incomodou-me especialmente, porque perseguia-me.
Geralmente os olhos do preconceito são olhos chocados, mas um tanto quanto subtis…

Estávamos a escolher frutos e legumes, até que ao meu lado parou uma senhora (a dos olhos perseguidores) e começou a, literalmente, fingir q escolhia o mesmo que eu…até que não se aguentou e disse:

“Eu já estava a observá-la há algum tempo…A senhora tem aquela doença muito grave? Espero que corra tudo bem!
Tsc! Que chato…”

(Já não é de hoje que eu odeio este som… Tsc …desde o diagnóstico fiquei traumatizada com o ‘tsc’… Com certeza não viria boa coisa! Mas ela nem respirava… Seguia metralhando) 😀

“Mas sinceramente não sei como consegue sorrir tanto…é tão nova, tem uma filhinha tão pequena…não tem medo?”

O ar de pesar da senhora era mesmo de dar dó! 🙂 parecia que eu ia morrer já amanhã…

E finalizou com mais um ‘tsc‘…

Pra quê??? 😛

Eu sorrindo disse a ela que não tinha só uma filha, mas sim duas!
E somando a elas duas eu tinha mais uns quantos motivos para sorrir, um deles, talvez o maior nesta fase da vida, era o de ter a OPORTUNIDADE de lutar pela minha vida…e com bom humor (as vezes 😛 )! E que naquele momento, especificamente, eu não tinha motivo nenhum para estar triste. Apesar de sofrer com o tratamento, porque sim! É doloroso!

Eu senti a senhora toda embrulhada, talvez arrependida…mesmo assim completei dizendo que “eu não sou digna de pena, seria sim se já tivesse desistido antes de começar a luta.
E que para mim, complicado, era lidar com a pena, o preconceito e a falta de informação das pessoas…”

E pior: com a indiscrição delas! … Mas esta ficou guardada em baixo da língua. 😛

Embrulhei-a no saco junto com os legumes que ela certamente não comprou…

Enquanto isso tudo se passava a Juju parecia absorvida numa brincadeira de tira e põe frutinhas dentro de uns cestos em forma de coração que tínhamos escolhido noutro setor… Segui em frente dizendo para o ar: “ela não é boa da cabeça Juju!” – me referindo à senhora e me sentindo um pouco indignada – ao que a Ju respondeu:

“Não é não mama! Mas o que importa é o que está no coração…” 😀

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E levantou o cestinho de coração com pêras lá dentro… 🙂 Tão Fofa!!!
Uma feliz coincidência…sem saber a Juliana tinha toda razão! E seguimos felizes…

Toda esta história de pena, preconceito, falta de informação me fez pensar muito como o câncer pode isolar as pessoas só porque ainda não se consegue conceber a ideia de que é possível passar pela doença com alguma leveza…

Há dias muito ruins, de fato! Mas há dias fantásticos…e sobretudo, poder lutar pela vida é um grande privilégio, uma oportunidade fabulosa de sobreviver mesmo tendo beijado o rosto da morte…

Quantas pessoas morrem no trânsito, nas catástrofes naturais, fruto da violência urbana, ou simplesmente por estar no lugar errado e na hora errada? Sem ter tido a oportunidade de lutar por uma segunda chance? Eu não sei o desfecho desta história, mas sigo francamente feliz por poder lutar pelo final que eu escolhi. 😉

A própria palavra –câncer– em si está carregada de tabu…tal como já foi AIDS e as outras quantas doenças “que matam”… na verdade lidamos muito mal com a morte…é verdade! Que grande chatice essa de poder ter uma data marcada para morrer…



…mas não dar nome aos bois altera alguma coisa?

E não estar informado é meio caminho para acontecer o preconceito…Pasmem: ainda existem pessoas no mundo que acreditam que o câncer é uma doença contagiosa… 😦

Quando tenho que dizer o nome da doença que tenho, digo-a, sem problemas…mas também já tive medo, agora vivo-a, e talvez por isso me custe menos…É intrínseco, está enraizado na sociedade…mesmo o meu médico ao dar o diagnóstico utilizou uma substituta ‘fofa’ tentando dar um ar ‘leve’ à palavra: “tumorzinho”.

O que eu tenho é câncer…

Não preciso ser protegida da palavra porque conheço-a, na primeira pessoa…Protejo a minha Giovana, que é pequenina para absorver tanta informação e já foi ‘contaminada’ pela falta de informação da sociedade: chegou um dia em casa, chocada, dizendo que o “cancro mata mamã!”. O câncer PODE matar, mas não é uma sentença de morte…Um carro mata, uma arma mata, até um amor (mal resolvido) pode matar…

O que não se conhece teme-se, claro! Mas a verdade é que o câncer está cada vez mais próximo de todos nós…um parente, um vizinho, um amigo…e ainda assim não se sabe lidar com ele, muito menos com quem vive COM ele…

Vai saber bem, sobretudo ao doente oncológico, encontrar pessoas mais bem informadas e menos preconceituosas no mundo. 🙂

Apetece-me destapar a carequinha, colocar um lindo lenço…no pescoçoooooo, e sair passeando mundo afora 😀

Felizmente eu não posso queixar-me de isolamento, tenho muitas pessoas que ESTÃO verdadeiramente comigo, muitas mesmo! Amigos e familiares de todos os cantos, rezando, torcendo, enviando energia e pensamento positivo… A distância não é empecilho quando se gosta verdadeiramente…

A minha família (de cá e de lá) está incansável na tarefa de me promover bem-estar e conforto. Ninguém está parado no mesmo lugar, e todos têm um papel fundamental neste processo que, até agora, está sendo bem-sucedido, todos têm um papel fundamental na minha postura diante desta grande adversidade.

Estas pessoas, todas – de quem falo, falam francamente, sem rodeios e com todas as letras, oferecem ajuda com intenção, percebem e são sensíveis aos meus momentos e necessidades…e que bom! Que sorte eu tenho! 🙂


Mas também tenho aquelas pessoas só curiosas… 😛 …pode ser que aprendam alguma coisinha e saiam no lucro depois de lerem os meus desabafos… 😀

Ah! E também tenho aquelas pessoas que me isolaram –sim- numa caixinha de vidro (parentes e até amigos de longa data), que me observam como se eu fosse uma peça de porcelana num museu, mas não falam nada, deixaram de falar como num passe de mágica …plim…porque simplesmente não sabem o que falar…eu compreendo…

É mesmo muito difícil lidar com a perda… mas que tal pensarem que ainda não me perderam? 😀

Eu cá estou! E respondo a tudo e a todos sempre que consigo 😉

Aliás, sobre este tema, recebi de um grande amigo um link de uns postais fantásticos que uma doente oncológica criou para ajudar a estas pessoas que ‘não sabem o que dizer à um doente oncológico’… 🙂

Tá aqui: http://emilymcdowell.com/collections/all/products/friendship-through-cancer-empathy-card 😉

Mais o que é importante deste blá-blá todo? 😛

Foi que na última consulta, que antecedeu a Poção Quatro, tive grandes e encorajadoras notícias, que me deram fôlego para seguir com o otimismo habitual. 🙂

Desta vez, em três semanas contabilizei dois dias fantásticos, e neste momento estou de volta à cama com febre, dores e sintomas de uma gripe esquisita…mas feliz 🙂 🙂 🙂 aproveitando esta OPORTUNIDADE maluca 😛 de ficar boa e voltar borboleta.

Que venha o número CINCO! E que venham as TRÊS últimas doses! 😉

OPORTUNIDADE | s. f. | s. f. pl.

oportunidade
s. f.
1. Qualidade de oportuno.
2. Ocasião, altura, ensejo, conveniência.

oportunidades
s. f. pl.
3. Caminhos, futuro, perspectivas.

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Vermelho com Bolinhas não me cai bem… 😛 Vou Optar Pelo Branco! 😉 Que venham as quimios BRANCAS!!! 😀

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3 thoughts on “…sobre o número quatro

  1. Pingback: Pormenores – A Chuva | Mãe Borboleta

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