…sobre o número sete


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…E lá se foi o número SETE!

Fecha-se um ciclo para outro abrir…e assim eu estou quase a terminar o ‘processo’ de renascer…

É hora de fazer um balanço, em jeito de ‘dar notícias’ 😉

Eu hoje não vou falar de sintomas… Não vou enumerar e dissertar sobre cada uma das minhas últimas dores…

…em jeito de dar notícias direi apenas que estou mais resistente às dores, e elas estão cada dia mais potentes…Mas Estou Feliz demais para falar delas, e já as senti… Todos elas desta vez.

Prefiro hoje falar de coragem, e de como a minha coragem foi posta à prova…

Porque é preciso ter muita coragem para assinar o documento protocolar do tratamento de quimioterapia que atesta o pleno conhecimento do assinante de todos os riscos inerentes ao tratamento…

Logo na primeira consulta oncológica colocam à nossa frente este documento assustador…
Um tratamento que precisa de um documento e uma assinatura para certificar-se de que o doente está ciente de tudo o que vem por aí…

Hummm… Não podia mesmo ser boa coisa… 😛

E será que nesta hora da assinatura estamos mesmo conscientes e cientes de todas as dores e dissabores pelas quais iremos passar???

Se for a primeira vez, como foi o meu caso, com certeza NÃO!
Temos vaga ideia, com base naquilo que ouvimos ou lemos…

Mas agora sei que nenhuma palavra é capaz de traduzir de fato aquilo que eu sinto…

Quando falo dos sintomas estou dando uma vaga ideia… Tudo o que eu sinto, em todos os aspetos, é muito mais profundo e complexo do que uma simples palavra possa traduzir…

Lembro-me de tremer com o documento na mão… Fiquei algum tempo tentando ler, assimilar, digerir…

Não me lembro de uma frase completa, se calhar nem lembro de uma palavra!

Estava nervosa, ansiosa… Queria começar logo o processo, queria ficar boa logo…mas o tratamento era aquele “bicho de sete cabeças”. O mais temido dos tratamentos estava ali agora, nas minhas mãos, pedindo:

“Assina-me! Vá!”

Olhei para a Dra Margarida. Ela olhava serena para mim à espera de ver-me a “canetar” o documento smile emoticon
Tinha um meio sorriso no rosto…

Eu senti-me segura com ela desde o primeiro momento; é franca, assertiva, direta!!! E tem uma doçura de mãe no olhar… E fez-me lembrar a minha mãe que me passava Merthiolate nas feridas, de menina levada e traquina, dizendo a frase:

“O que arde cura!”

…e de fato… As minhas feridas desta época foram todas curadas… Ardeu, mas curou!

Com a caneta em punho, documento na outra mão perguntei sorrindo:

“Eu tenho outra opção? Um plano B?”

Sorrindo a doutora respondeu:
“Não! Quer dizer, tem… Mas é melhor não falarmos nisto…”

Neste dia eu levava uma t-shirt especialmente escolhida para o momento… Animal print (adoro!), com uma frase providencial estampada:

“Better Days Are Coming”

A doutora adorou tirou uma fotografia minha e disse que gostava da atitude, e que tudo era uma questão de atitude. 🙂

Enchi-me de coragem e assinei o documento! Eu realmente não tinha outra opção, ninguém na minha condição teria outra opção… E para estarmos vivos, em qualquer condição, é preciso ter muita coragem…

As nossas escolhas diárias, por menores que sejam, são atos de bravura e coragem a favor da vida… As nossas escolhas, os caminhos que escolhemos, as decisões que tomamos são sempre baseadas na sobrevivência!

Ninguém toma a decisão de desviar de um grande buraco fundo no meio da estrada sem que esteja a vislumbrar (mesmo que seja no subconsciente) a VIDA, a sobrevivência, a permanência aqui na Terra…

Viver, realmente, é uma sucessão de pequenos ou grandes atos de coragem…

E esta coragem não pertence particularmente ao doente oncológico, ou ao portador de uma doença grave cuja vida é colocada em risco a cada minuto.
É verdade que somos colocados à prova de uma forma muito dramática… E de fato sofremos dores sobre-humanas que nos dá, sim, o título de Super-Humano…

Mas a coragem de lutar para sobreviver é intrínseca, natural, em qualquer ser humano…e tão natural quanto esta coragem é o medo que a antecede…

Mas é um medo que não me petrifica, por mais assustador que seja o monstro, o buraco ou tratamento para a cura de uma doença grave…

Eu nunca impedi a minha mãe de cuidar com Merthiolate das minhas feridas abertas, embora soubesse que iria arder…

Eu jamais impediria a Dra Margarida de me cuidar, com o pior dos tratamentos, embora soubesse que iria “arder”… E está ardendo… E muito!

Mas está valendo a pena! Esta “ferida” está se fechando, assim como as feridas da minha infância se fecharam…

Viver é muito mais que um “simples ardor”…estar aqui é muito mais que isso; acordar todos os dias e perceber-se viva, respirando, poder observar todas as belezas da vida, criar, produzir, ensinar, ouvir todos os sons, provar todos os sabores, sentir a pele a arrepiar com o vento frio, sugar a vida em cada um dos seus pormenores…

Que maravilha!

Realmente viver é muito mais que uma dor ou um dissabor que eu possa sentir…

“TUDO vale a pena se a alma não é pequena!”

E que pena, só agora eu “aprendi” a viver realmente intensamente, sem me apegar aos pormenores fúteis que me aparecem pela frente…

Quanto tempo eu já perdi…

Mas ainda bem que eu vou a tempo de recuperar porque, se bem me lembro, o meu sobrenome é Recomeçar!

E recomeçar transformada, sabendo exatamente o que quer dizer a palavra morte, sabendo perfeitamente o quanto efêmera é a vida, será a minha garantia de que tudo farei para estar COMPLETA vivendo cada dia ao pormenor, porque o que importa nisto tudo são os pormenores, que são engolidos pela nossa rotina frenética contemporânea, que nos impede de viver a beleza daquilo que é pequeno diante da complexidade da nossa vida atual, mas que nos dá imenso prazer.

E viver sem prazer, sem gostar, sem sorrir, sem amar não tem graça nenhuma… Que grande desperdício de vida desta gente sisuda que só sabe reclamar da vida e da sorte que não vem…

E é por isso que quando eu renascer eu vou sorver a vida com outros olhos, transformada, de dentro pra fora… Destemida, destapada, corajosa… Sem deixar para amanhã o que eu posso viver hoje, porque, agora eu sei: o amanhã pode não chegar…

Não vou mais confiar na sorte, nem na certeza de que permanecerei aqui eternamente…só agora eu aprendi o quão provisória é a vida, e o quão bom é estar viva…

Em três semanas vivi três semanas espetaculares, cheia de dores e sintomas que aprendi a conviver. Estou ainda mais “enrolada” no meu casulo porque estou fraca, debilitada e pouco consigo fazer… O tratamento já me tirou tantas capacidades, e já me deu tanto…por isso não reclamo a minha sorte. Espero com paciência (e feliz) pela última dose :…)

E se eu estou aqui agora, feliz, completa e me sentindo querida, cuidada e amada é porque você está aí “lendo-me” e querendo, e esperando, tanto quanto eu, o meu final feliz…

E por mais que tenha passado muitos momentos sozinha, nunca senti a solidão, nunca me senti perdida ou sem rumo, o espaço que me separa das pessoas (tantas!) que gostam de mim, é ínfimo, quase um nada…

Estive sempre rodeada de uma nuvem ternurenta de amor, solidariedade, generosidade e dedicação…

Nunca estive efetivamente sozinha… eu tenho muitos corações batendo no mesmo compasso que o meu, e dedicarei a todos a alegria do meu objetivo cumprido…

…Eu continuo seguindo o caminho que escolhi…feliz…porque não estou sozinha!

Que venha a última dose!
(tanto que esperei para escrever esta frase… :…)

co·ra·gem
(francês courage)
substantivo feminino
1. Firmeza de ânimo ante o perigo, os reveses, os sofrimentos.
2. [Figurado] [Figurado] Constância, perseverança (com que se prossegue no que é difícil de conseguir).

“coragem”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/coragem [consultado em 11-07-2015].

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3 thoughts on “…sobre o número sete

  1. Pingback: Pormenores – A Chuva | Mãe Borboleta

  2. Oi mamãe borboleta, cheguei ao seu lindo blog quase que por um acaso, li com carinho cada post seu e me recordando de você em cada palavra que escreve, você realmente não está sozinha. Seu amigo nunca te esqueceu. Passei por momentos difíceis e ainda devo passar por alguns outros. Acho que você deve conhecer o que disse o escritor Fernando Sabino “No fim tudo dá certo, e se não deu certo é porque ainda não chegou ao fim.” Estarei te acompanhando e me alegrando com cada etapa vencida. Um grande beijo no seu coração. Jorge Junior.

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    • E que saudades de ti meu querido, e nunca esquecido, amigo Jorge Junior…
      É incrível as voltas que a vida dá e como o destino volta a aproximar as pessoas queridas que nunca deveriam ter saído de perto de nós…
      Feliz por estar “ao meu lado” nesta hora tão difícil da minha vida… Eu sabia que não ias falhar…
      Obrigada amigo querido!
      Um enorme Bj no teu coração!

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