Reticências …


Em jeito de dar notícias cá estou para um desabafo pós cirúrgico…

 

Entre reticências (adoro-as! Adoro o poder que têm de não definir concretamente um pensamento…tudo muda a todo instante…ainda bem!…diria a borboleta 🙂 ) tentarei descrever os sentimentos que me acompanham – eu enquanto sobrevivente de um cancro.

…o ponto final não existe (ainda) e as vírgulas que encontro pelo caminho definem a insegurança de quem quer o ponto final, mas ainda tem muito desta história para viver e contar…

As estatísticas mais otimistas mostram que em 50% dos doentes oncológicos o tumor maligno desaparece por completo após os tratamentos, contudo, quando se coloca um ponto final nesta história outra história começa a ser escrita…

O medo da recidiva, de fazer parte da outra metade que demonstram as estatísticas, o medo da vírgula que separa duas sentenças…trazendo para perto –e não afastando- toda ambiguidade, complexidade e indeterminação de ‘SER’ um doente oncológico.

…e que pena…ainda somos tão discriminados…a sentença de morte de outrora define agora o nosso ser e estar…aos olhos do outro somos areia movediça –frágeis, instáveis, incapazes.

…mas o que vemos por dentro não tem nada de movediço…é rocha forte, antes grão de areia, que se formou numa fusão de sentimentos vividos em tempos difíceis…

Com a discriminação aprendemos a abstrair…a filtrar…toda opinião formada sobre nós!…apesar de receber a palavra CÂNCER como predicativo adquirido, passamos a dar mais ouvido (e mais paciência) às nossas fraquezas (aquelas que ganhamos com a doença), aprendemos a ouvir o corpo com o coração e, assim, o respeitamos mais…porque passamos a nos conhecer melhor…as adversidades da doença trazem com elas maturidade e auto conhecimento, não há parte nenhuma de mim que eu não conheça com intimidade, e esta foi uma grande conquista, a maior talvez!

Outra grande conquista foi experimentar a morte…não a morte do corpo, das células, dos neurónios e de tudo que os tratamentos agressivos provocam arrasando como fogo por onde passam.

Experienciar a morte de um tumor maligno é renascer fazendo um pacto com a VIDA, contabilizando todo o lucro que temos só por estarmos vivos…morrem com o tumor todas as certezas inúteis que nos tornam pedantes e ‘imortais’, morre com o tumor as convicções, as manias, a falta de humildade perante cada batida do coração.

…só os pormenores contam…

…e ainda há aqueles que ao sobreviverem à doença transformam-se em verdadeiros zumbis, contabilizando o que perderam vezes sem conta…estão mortos…presos num passado (amargo, é verdade!), fazem companhia aos restos mortais do tumor, incapazes de enxergar toda a transformação e de transformar, assim, o presente e o futuro…

QUE PENA! QUE DESPERDÍCIO…

 

As minhas maiores exclamações provém dos ais e dos uis que deixo escapulir provenientes das dores que tornaram-se minhas companheiras inseparáveis…

As mazelas e os estragos herdados pela passagem de um tumor não me permitem esquecer tudo o que foi vivido…e há quem diga que é humanamente impossível conviver com a dor todos os dias, horas, minutos, segundos…confirmo veementemente!

…e por isso mesmo passei a imaginar-me uma espécie de super-humano…não consigo expressar com palavras as dores e dissabores provocados pelos tratamentos que me mantêm longe de uma recidiva, tampouco existem palavras para definirem as dores que ficaram do processo de ‘reconstrução da minha estima’, e por fim jamais conseguiria explicar a dor da fibrose causada pelo excesso de radiação na mama reconstruída.

…mas…sim…posso explicar a esperança que mora em mim de que um dia o ponto final vai chegar. E posso explicar também a minha teimosia em buscar a qualidade de vida que ficou pelo caminho…e é de perseverança que estou falando…é de não desistir de mim e daquilo que me faz feliz…porque eu sou feliz todos os dias, mas sem as dores que me seguem eu serei infinitas vezes mais feliz!

IMG_7306

O meu príncipe cuida de mim 🙂

…no dia 6 de junho, então, lá fui eu de mala e cuia…hospital, internamento, cirurgia! Mais um enxerto de gordura na fibrose da mama reconstruída, mais um enxerto de esperança -esta é ‘de vez’!

A recuperação é penosa, chatinha! Estou multicolorida com as nódoas negras da intervenção, estou fechada e apertada numa espécie de armadura que protege o meu corpo fragilizado, estou fraca, tenho dores, tenho calor…muito calor!

Mas tenho mais (muito mais) vontade de transformar todos estes pontos e virgulas em felizes reticências pela vida afora!

IMG_7324 (Editado)

As maiores forças que me movem!

…mais uma batalha…mais um carregamento de força e determinação definindo e traçando o caminho que eu escolhi…sigo feliz com a certeza de que mereço (e faço por merecer) cada sopro de vida!

 

 

Reticências

“Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na ação. Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado; Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa! Vou fazer as malas para o Definitivo, Organizar Álvaro de Campos, E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem — um antes de ontem que é sempre… Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei. Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir…”

(…)

Álvaro de Campos (Heterónimo de Fernando Pessoa)

 

IMG_7371 - Cópia

 

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