Viva a Vida!


Há doze anos entrei numa guerra que nunca escolhi.


Uma guerra feita de silêncios, de esperas intermináveis, de noites onde o medo ocupava demasiado espaço, de exames, cirurgias, tratamentos e da estranha sensação de que o tempo tinha deixado de me pertencer.
Houve dias em que pensei que nunca mais voltaria a reconhecer a mulher que era.


E, de certa forma, nunca voltei.
Porque aquela mulher ficou para trás.
No lugar dela nasceu outra.
Uma mulher marcada. Remendada. Costurada pelas cicatrizes que a vida decidiu desenhar no seu corpo. Uma mulher que aprendeu que a coragem nunca chega a gritar. A coragem levanta-se. Todos os dias. Mesmo quando as pernas tremem.


Hoje olho para estas fotografias e vejo uma mulher em tempo de guerra.
Mas quando me olho ao espelho, vejo uma mulher em tempo de vida.
As cicatrizes continuam aqui. Algumas vêem-se. Outras moram onde só o coração consegue chegar. Já não as escondo. Elas são a prova de que sobrevivi aos dias que um dia pensei que não sobreviveria.
Durante muito tempo o cancro parecia uma sombra enorme, sempre à minha frente.


Hoje, caminho ao lado da memória, mas já não caminho ao lado do medo.
Porque a vida voltou a acontecer.
Voltou a cheirar a café acabado de fazer. Voltou a rir com as minhas filhas. Voltou a encher-se de tinta, de arte, de abraços demorados, de gargalhadas, de viagens, de projetos e de manhãs comuns… e descobri que as manhãs comuns são, afinal, extraordinárias.
Se estás agora a atravessar o teu próprio tempo de guerra, queria que soubesses uma coisa.


Tu és muito mais do que este diagnóstico.


Há dias em que vais sentir-te pequena. Cansada. Zangada. Assustada.


E está tudo certo.


Mas nunca deixes que a doença te convença de que ela escreve o último capítulo da tua história.


Não escreve.


Há vida depois do cancro.
Há beleza depois da tempestade.
Há luz depois da noite mais longa.
E há uma mulher extraordinária dentro de ti que talvez ainda não conheças… mas que nascerá desta travessia.

Neste Outubro Rosa deixo também um abraço a todas as mulheres que ainda acreditam que “comigo não acontece”.
Olhem para o vosso corpo com amor.


Escutem-no.


Toquem-lhe com cuidado.
Façam os exames.
Cuidar de nós nunca é um excesso de zelo. É um ato profundo de amor-próprio.


Hoje vivo sem a sombra permanente do cancro.
Mas levo comigo a memória de tudo o que vivi.
E, curiosamente, já não pesa.
Transformou-se em asas.

Porque algumas guerras não acabam quando vencemos a doença.
Acabam no dia em que voltamos a escolher viver.
E eu…
Escolho a vida.
Todos os dias.

Hoje já não conto o tempo desde o cancro. Conto os pores do sol que não perdi, os abraços que pude voltar a dar, as gargalhadas que regressaram à mesa, a tinta que voltou a sujar as minhas mãos, o amor que cresceu onde antes havia medo.

Se algum dia a doença me roubou a inocência, também me ofereceu uma estranha forma de lucidez: a certeza de que viver não é esperar pelo dia perfeito. É encontrar beleza nos dias comuns.

Que este Outubro Rosa seja um lembrete de que a prevenção salva vidas, mas que a esperança também. E que, mesmo quando tudo parece escuro, há sempre uma pequena luz à nossa espera.


Eu encontrei a minha.


E hoje caminho com ela acesa, para que outras mulheres nunca deixem de acreditar que também podem encontrar a delas.

Viva a Vida!🩷

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