Uma Carta


Aqui está ele, o meu pai…

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Parece uma prenda do destino, fazer-me encontrar esta carta nos meus guardados antigos…hoje, dia 30 de Setembro de 2016, dez anos depois do fatídico dia em que meu pai se transformou para sempre.

Eu já morava em Portugal, há pouco tempo, e tinha ido de férias para estar com a família…Foram ótimas estas férias, aproveitamos muito, ganhei o colo e o mimo de que precisava, mas estavam acabando…Dia 1 de outubro era a data que marcava o nosso retorno para casa…pelo menos era o que estava escrito no bilhete de avião….

Meu pai fez questão de reunir a sua família com a família da sua irmã a quem ele mais se dedicava e admirava, já há algum tempo não se viam, e ele quis estar ao lado dela…combinamos um churrasco e reunimo-nos todos à volta da mesa, descontraídos, contando detalhes sobre a vida que nos engole e não nos permite acompanhar de perto a vida do outro que tanto amamos…

Enquanto conversava eu admirava com satisfação aquele momento… estava com as pessoas (todas) que me ajudaram a crescer, e que cresceram comigo.

 Durante muitos anos a tia morou no andar de baixo no mesmo prédio que nós, e os meus primos eram na verdade, meus irmãos…fomos criados juntos…

Vez por outra já batia uma nostalgia, uma melancolia…um nó na garganta – comum das despedidas…eu olhava para as minhas irmãs, para a minha mãe, para o meu pai…ardia-me o peito…eu abanava a cabeça tentando esquecer que aquele era o último dia de férias…

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A última Fotografia

 

…sentei-me ao lado dele…segurei a sua mão – fria…e ficamos assim em silêncio por algum tempo, a observar as pessoas…

O meu pai era um cara que gostava de pessoas! Era sociável, compreensível, extrovertido, simpático, amigo…admirador nato de pessoas – como elas são…um respeito profundo pela forma de ser de cada um…sem preconceitos, sem juízos de valor, sem julgamentos…

Estava sempre a rir :), ria de tudo, ria com todos, tinha sempre uma palavra amiga combinada com um sorriso largo para oferecer a quem passava por ele.

Piadas! Conhecia todas e mais algumas…vi serões divertidos acontecerem a sua volta, era envolvente, boa onda, boa energia!

Ele parecia estar perdido, com um olhar vazio, sereno…parecia haver música dentro dele, porque ele sorria, parecia gostar muito do que via, do que sentia – estava orgulhoso!

Ainda em casa, de manhã, antes de sairmos ele abraçou-me e disse: “Tão bom ter você aqui filha, sabe que o papai tem muito orgulho de ti! Aliás, vocês três são o meu maior tesouro!”

Brinquei com ele: “Ih! Coroa, hoje ‘

tá sentimental!”

Ele sorriu e apertamos as mãos como fazíamos quando queríamos parecer cool 😛 Mais ou menos como os surfistas do Rio faziam 🙂

…o seu  sorriso, mesmo que as vezes tímido, era constante…ele observava as pessoas todas a volta, uma a uma…a sua família ali, toda reunida…

O que se ouvia, além dos pássaros, eram as risotas, conversas cruzadas, palavras soltas, gente feliz, reunida, convivendo e tentando viver tudo num só momento.

Eu o observava…também com um sorriso nos lábios, coração apertado lembrando que

“amanhã há choradeira no aeroporto”

 …o meu pai chorava sempre, a saudade transbordava para aqueles olhos negros gigantes, e transformavam-se  em duas bolas vermelhas que ficavam difíceis de disfarçar…mesmo chorando ele sorria. 😀 …e quando as palavras não conseguiam sair, engasgadas, atrapalhadas, presas na garganta, ele levantava o polegar!

Quando ele terminou o seu tour pelas pessoas com aquele olhar vago, os seus olhos vieram parar em mim…

O seu olhar vazio encheu-se de um medo anunciado sem palavras… o sorriso dos lábios desapareceu e eu percebi ali que tinha algo de diferente acontecendo. A sua mão gélida, então, apertou a minha mão, como quem quer dizer algo…e eu entendi…

“Pai? Papai? Paizão?”

“…papai, o que foi? Pai? Está com alguma dor? Fala comigo!”

O seu olhar fixo no meu, me pedia socorro…e todo o resto que aconteceu ali foi um trauma, uma ferida aberta para sempre…para sempre…

Aos cinquenta e poucos anos, eu não esperava que ele iria embora assim, não ali, não agora, nunca de preferência…

Comecei a negar, enquanto o vi sendo carregado pelos meus primos… as perninhas finas e magrelas deixaram de obedecer…

“Não pai! Anda! Vai! Com as tuas pernas! Força, eu sei que você consegue…”

Ele olhou para o meu lado ao ouvir o que eu disse, e sem conseguir dizer uma palavra, ele me disse tudo…

Apertou bem os lábios, fechou os olhos por um instante e abanou a cabeça com dificuldade. Voltou a olhar-me, desta vez um olhar muito doce e sereno, conformado…um olhar de quem quer dizer: vai ficar tudo bem…Ele nunca me enganou, confiava a 100% nele, era homem justo, de palavra, cheio de valores, honesto!

Com certeza, vai ficar tudo bem…foi o meu pai que disse!

Era desse tipo de gente em quem se confia piamente – como pai nunca falhou…nunca prometia o que não conseguiria cumprir, sempre honrou com cada uma das suas promessas.

Estas modernices de ‘individualismo’, que hoje em dia tanto se prega nos casamentos, com ou sem filhos…esta necessidade visivelmente avassaladora do humano contemporâneo, de manter a sua individualidade intocada, imaculada, prescindindo assim, muitas vezes, das suas obrigações de PAI, ahhh não existiam, não! Onde ele estava, estávamos todas…E era sempre divertido estar com ele!

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Praia – Rio 40º

 

Passavam filmes dentro de mim, daquele homem gigante que foi o meu herói da infância…eu sonhava tocar os céus porque ele era paraquedista, eu quis ser judoca porque um dia encontrei um kimono guardado no seu armário, eu vi o meu pai praticar desporto sempre, e segui o seu caminho…eu quis ser engenheira para ele se orgulhar de mim, e para fazer parte dos seus projetos…

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…eu fui o menino que ele um dia sonhou ter, e me vestia com o uniforme do futebol quando eu ia assistir aos jogos de futsal…lembro-me uma vez sozinha na arquibancada, estava frio, eu enroladinha em mim mesma; pedira um gol enquanto estávamos ainda no caminho da quadra, e esperei ansiosa por ele – o gol!…e quando finalmente eu vi a rede tremer – tão pequenina que eu era, mas me lembro da emoção que senti – lembro do calor no peito, do orgulho ao ver o meu pai apontando pra mim…batia com a mão no coração e apontava pra mim…lindo! Eu dava saltinhos no ar, e gritinhos histéricos que fizeram todos sorrirem. 🙂

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Eu vi um filme daquele pai que nos deixava encher a cabeça de elásticos e fitas coloridas, que nos deixava pintar os seus lábios e o seu rosto com maquilhagem.

Eu vi os nosso fins de noite a volta dos jogos de tabuleiro…

…e no fim de cada jogo, eu ouvi, repetidas vezes:

“Ganhamos todos, no mínimo nos divertimos!”

E ninguém ficava zangado por perder, que nada…”importa é participar!” 🙂

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… eu vi a nossa cumplicidade ao longo da vida…mesmo na fase da adolescência, quando nos afastamos um pouco, para tentar impor mais a minha liberdade e independência, mesmo aí…lembro-me de sentar-me ao seu lado para ver filmes no fim da noite, no fim de semana, ficávamos assim durante horas, em silencio, só aproveitando da companhia um do outro…

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Neste meu passeio pelos momentos com meu pai, eu senti o cheiro dos papéis (que eu adorava, ainda adoro!) que tinha no seu escritório, e tantas foram as vezes que eu arranjei desculpas para lá estar com ele, aquele lugar era mágico, eu ganhava bloquinhos e canetas para desenhar, fazia de conta que era sua secretária e algumas vezes atendi telefonemas de clientes, que se divertiam junto com ele, sempre orgulhoso e bem-disposto…

Todas as minhas produções artísticas eram guardadas por ele, eu fazia toneladas de desenhos e ele os guardava delicadamente numa das gavetas da secretária.

Aliás, dois dias antes (28/09) ele chamou-me ao seu quarto, com um sorriso aberto e orgulhoso e tirou da carteira um pequeno pedaço de papel muito antigo e já amarelo – com duas figuras desenhadas nele.

“Lembra?”

“Não pai… eu que desenhei?”

“Sim! Você tinha cinco anos! Esta era a sua versão de nós dois…”

No desenho, estávamos de mãos dadas…nós seguimos assim ao longo de toda a nossa vida, quando saíamos juntos íamos de mãos dadas – sempre 🙂

Eu sorri, dei-lhe um beijinho no rosto e ele orgulhoso, voltou a guardar o pequeno papel na carteira.

Eu ouvi, na memória, o som da sua voz contando a história da Alice no País das Maravilhas…e algumas vezes o vi adormecer, cansado depois de um dia de trabalho, em cima do livro.

Eu vi passearem os seus desenhos horríveis, bem em frente dos meus olhos, os bonecos com cabeças minúsculas e barrigas homéricas…Eu lembrei-me do que ele dizia quando criticávamos a sua ‘arte’…ele dizia que alguém deveria desenhar mal ali, e que fosse ele, porque nós sempre faríamos desenhos lindos e coloridos… :..(

 

Só ali, naquele fatídico dia, eu percebi o que era saudade de verdade…

No dia a seguir ao AVC ele foi embora, mas já não esteve cá desde aquele último olhar pra mim…ele foi embora naquele preciso momento…tudo o que veio depois foi uma tentativa, sem sucesso, de trazê-lo de volta para nós.

O meu pai não voltou a amanhecer…anoiteceu para sempre numa estrela que brilha o brilho mais brilhoso do céu… o rádio, de manhã, deixou de tocar, e eu não voltei a ouvir a sua voz cantando ‘Will Somebody Loves You…”, e o seu assobio melódico, melancólico e afinadinho foi embora com ele, levando assim as melhores memórias das manhãs acordadas sempre com boa disposição e bom humor para trabalhar e estudar…estava sempre tudo bem para ele.

Carioca da Gema, Gente Finíssima!

Extremamente inteligente, letrado…tínhamos brigas homéricas por causa do português 🙂 …ele me corrigia a gramática dos textos livres que eu escrevia, eu voltava a escrever igual – “estilo não se corrige pai!”, ele reclamava das minhas reticências “…usa-as demais!”…  🙂 e era o mote para dissertar horas sobre o que tinha aprendido na aula de linguística…ele ouvia orgulhoso, provavelmente discordando de tudo, mas sempre a sorrir…muitas vezes acusei-o de ‘preconceituoso linguístico’ 😀

Com certeza, lá em cima, ele anda a fazer revisões dos meus textos, com a mão na cabeça… 🙂

“Pai, não esquece! É estilo! ;)”

…e as minhas reticências (uso-as cada vez mais, sorry pai! 😛 ) são tão necessárias quanto o ar que respiro, são as pausas necessárias para arrumar as ideias e os sentimentos que moram nas palavras.

Ele, o meu pai, podia TUDO mas tomou decisões na vida que colocaram a família num patamar intocável, no topo do tudo!

…abdicou de muito…abriu mão de grandes empregos, salários promissores, porque tinha um compromisso inadiável: criar e educar três filhas! E dinheiro ou matéria nenhuma pagaria aquilo que ele nos deu…Ele pouco construiu materialmente falando, mas o essencial nunca nos faltou.

E o seu amor e a sua dedicação eram SEMPRE inteiros, nunca houve escassez, só fartura!

Viveu uma vida inteira dedicada a nós!

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Não deixou herança física, não deixou bens materiais… deixou sim para o mundo, e isso sim é um bem maior:

Gente do bem!

Gente que não tem medo da luta, que arregaça as mangas e vai…o medo não nos pára, e a nossa maior premissa é o AMOR, diante de qualquer circunstância…

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Modéstia à parte, somos sim! As três, muito bem formadas! Cada uma a sua maneira, mas cada uma com um pouco (muito) dele! A sua filosofia de vida está presente, diariamente, nas nossas vidas.

A nossa forma de ser e estar no mundo, é um quadro fiel da tela onde ele nos pintou…

Ele sonhou que seríamos assim, ele fez por isso, ele foi um PAI com letras garrafais, ele se deu e nos ensinou a sermos o melhor que podemos ser, ele ensinou-nos que melhor do que ter é SER, e que a nossa felicidade nunca deveria estar atrelada à matéria…

Só os sentimentos contam…no final…

Dono de uma inteligência emocional fora do padrão, escrevia-nos cartas quilométricas, explicava a vida, as emoções, os valores…indicava-nos caminhos e nunca nos dava respostas -fazia perguntas, de tal forma que acabávamos por responder, sozinhas, às nossas próprias perguntas.

 

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Uma carta, uma prenda do Universo

 

Deu-nos liberdade, e sozinhas tivemos que lidar com ela, aprendemos na marra a sermos responsáveis, e a nossa independência foi a melhor consequência deste grande ato pedagógico.

“Não nos deu o peixe, jogou-nos no mar para aprendermos a pescar sozinhas.” 😀

Ele ensinou-nos que a humildade é a base mais sólida das virtudes, e que a gratidão tem que estar presente em todas as coisas, grandes ou pequenas.

Ele nunca permitiu que nos sentíssemos diminuídas, mostrou-nos com sabedoria que cada pessoa tem o seu tamanho e o seu lugar no mundo, e que nenhuns destes ‘tamanhos’ merecem ser depreciados. Tudo faz parte de algo maior, cada ser vivo importa, cada célula, cada gota…

“Cada um tem a sombra que merece!”

Ah! E aquela abelha que me mordeu no parque enquanto eu corria feliz descalça na relva (coitadinha) tinha um propósito, que não era o de me machucar, e eu vi o meu pai tirando a abelha ainda com o ferrão agarrado ao meu pé, de uma forma tão delicada…pousou-a com respeito ao lado na relva, e assim ele nos fazia entender a vida e o respeito por todas as coisas, independente do seu tamanho, do seu propósito na vida, ou mesmo do mal que ela possa vir a nos fazer.

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É quando releio as cartas do meu pai (meu maior tesouro) é que me vejo num espelho, e percebo a origem de mim mesma…da educação que me moldou.

Eu tinha treze anos quando ele me escreveu esta carta, eu já não me lembro dos motivos que o fizeram escrevê-la, mas é um pedido de desculpa, um reconhecer que esteve errado…é preciso ser um pai muito especial para reconhecer perante um filho de treze anos, que esteve errado…e o meu pai era assim: especial!

O seu senso de justiça era muito desenvolvido, e nunca nos sentimos lesadas.

Ele era assim mesmo…puro coração, todo ele, transbordava amor por todos os lados, era carinhoso, delicado e cuidadoso.

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“Em determinados momentos de nossas vidas, não podemos, e não devemos titubear. É decidir com determinação esperando que tudo dê certo. E, apesar de toda a tempestade, ainda estamos juntos, sempre unidos pelos nossos ideais, a despeito de todos os desencontros, de todas as mazelas que proliferam no mundo.

Minha admiração, meu Amor e um beijão na ponta do nariz.

Deste que não é perfeito.

Seu pai Veimar”

 

Eu tive pouco tempo para fazer tudo o que queria fazer pelo meu pai, mas ao menos não me faltou tempo para colocar em sua mão, já sem vida, o desenho de nós dois que aos cinco anos desenhei, provavelmente feliz ao seu lado, achando que ele seria eterno.

A sua mão faz-me muita falta pai…

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