Blás, Nietzsche, Notícias e Tatuagens


warofwords57

Há algum tempo ando engolindo as palavras que não escrevo aqui…

…sem tempo para mais nada, porque agora é a vida que me consome (ainda bem 🙂 ), faço coleções de palavras que gostaria de escrever -ou falar.

Não que isto me incomode -ser este mealheiro de letras e palavras- mas faz com que fale mais comigo mesma, numa solidão que me permite um contato mais profundo com aquilo que sou.

… os amigos estão afastados, como eu estou…cada um vivendo a sua rotina frenética, sem tempo para blás! E segundo Nietzsche, esta seria uma grande oportunidade para um aprendizado profundo, para desfrutar da minha própria companhia, e gostar disto! Sentir-me em casa, onde quer que eu esteja, mesmo rodeada de milhares de pessoas foi das melhores coisas que me aconteceram. A solidão já não me assusta, já não abro a porta de casa para correr para o entorpecimento coletivo, a procura de ambientes lotados de pessoas que possam se misturar a mim, tornando-me igual, homogenia…a solidão, agora, me restaura…

Calma! Não sou uma eremita antissocial 😛 Adoro convívios apesar da minha timidez, mas aprendi a tirar partido da solidão que é inevitável (ou mesmo provocada –por mim).

“Perspetivas distantes.

— A: Mas por que essa solidão?

— B: Não estou aborrecido com ninguém. Mas sozinho pareço ver os amigos de modo mais nítido e belo do que quando estou com eles; e quando amei e senti mais a música, vivia longe dela. Parece que necessito de perspetivas distantes para pensar bem nas coisas” –

Nietzsche, Aurora, §485

E se aqui estou, mexendo neste meu mealheiro de palavras, foi porque o meu corpo me obrigou a parar…na marra! 🙂

Nada de mais, mais do mesmo, ‘o da praxe’: hemorragia por conta do Tamoxifeno x anemia que teima em perdurar.

Para, respira, segue…

O corpo fala, neste caso gritou mesmo! E eu tive que parar…Vendo pelo lado positivo, cá estou, escolhendo ‘as tais’, para fazer um balanço, em jeito de dar notícias 😉

Depois da última cirurgia (julho/17), mais uma tentativa de reaver a minha qualidade de vida, quando fiz mais um enxerto de gordura na mama reconstruída, senti-me bem…a fibrose provocada pela radioterapia continua lá (firme e forte! 🙂 ), mas já sinto menos dores… (ufa…)

O tamoxifeno segue o seu fluxo natural, protegendo-me de uma recidiva e dando cabo dos meus ossinhos e de outras quantas ‘coisas’… 😀 Conviver com estes efeitos colaterais, as vezes, é aterrador…

Para, respira, segue…

Dois anos já passaram, desde o primeiro comprimidinho rosa que tomei…terminou um ciclo (quimio), começou imediatamente outro: Tamoxifeno!…ou, tamoxinferno, como gosto de, carinhosamente, lhe chamar 😀 …já só faltam três anos (ou oito! se decidirem alargar o protocolo) 😛

O meu trabalho tem me preenchido de uma forma fantástica! Sinto-me feliz, motivada, útil…tive o meu posto de trabalho revisto e modificado, na medida do meu condicionamento físico. Sou acariciada por pessoas compreensivas, generosas, cuidadosas e açucaradas, diariamente…vou trabalhar feliz, e ainda me perguntam porque na calçada –a caminho do trabalho- estou sempre sorrindo 🙂

Tenho o melhor trabalho do mundo: coloco em prática, todos os dias, a minha essência mais básica e intrínseca, aquilo que me define enquanto mulher, mãe, leoa, cuidadora!

Cuidar do outro é um dom, e eu sou muito feliz por reconhecer este dom em mim.

Em troca recebo beijos babados, sorrisos apaixonados, gritinhos de excitação…braços abertos a procura do meu abraço, pedidos de carinho. Os ‘meus’ bebés são lindos, e ajudam-me diariamente neste processo de aprendizagem e crescimento pessoal, enquanto procuro ser, estar e dar o melhor de mim para que cresçam e floresçam no mundo.

Além do meu trabalho tenho planos, projetos…sinto que não tenho vivido uma vida em vão… tenho montes de vida crescendo em mim, fazendo-me acordar e deitar feliz todos os dias, porque, finalmente, tenho energia para lidar com a minha ‘ânsia de vida’ e de fazer mais e mais!

Os livros que escrevi me preenchem – que alegria acreditar e saber que em algum lugar estou a ajudar alguém…tenho novos livros ‘no forno’ 😉

E poder retribuir à arte, tudo o que ela me fez, e faz…não tem preço…anda a sair do papel uma escola de belas artes… ando apaixonada por um projeto que nasceu quando estava muito doente. Será catártico ver as portas da escola abertas, recebendo pessoas que irão ‘beber’ desta fonte inesgotável e generosa de sentimentos inomináveis!

Todos os Sonhos são realizáveis quando existe a vontade latente de fazer acontecer…e não há nada mais forte do que uma ideia quando é chegada a hora de acontecer.

Planear e pensar no futuro é um luxo! Vivo um dia de cada vez com uma intensidade vibrante e quase entorpecente, mas sigo feliz (cansada fisicamente, mas feliz!) realizando cada passo rumo aos meus maiores sonhos…

A batalha pela realização destes sonhos remete-me à Fênix, que desenhada nas minhas costas, faz-me lembrar que nada é estanque…nossa vida é fluida e efémera.

Um pássaro as cores e vivaz num momento, um monte de pó cinzento noutro.

Ter este símbolo nas costas torna a minha vida mais real, sem expectativas vãs que me tornariam ‘naïf’, a ingenuidade é a maior inimiga da realidade…eu já fui cinzas, hoje coloro os céus com as minhas cores, amanhã –logo se vê!

Quem gosta e tem tatuagens sabe do poder que elas provocam em nós- os símbolos são poderosíssimos e muitas vezes determinantes, são capazes de modificar vidas e hábitos.

 

A minha Fênix foi especialmente ‘trabalhada’ por um par de mãos delicadas e fortes ao mesmo tempo, por uma cabeça consciente e empática e por um coração gigantesco…A Sara Raquel, foi a intermediária nesta minha busca pelo símbolo perfeito que ilustraria toda a minha luta.

tatoo colage.jpg

Cada traço, cada cor, cada degrade foi pensado com cuidado e esmero…Ficamos juntas, eu e a Sara, conectadas, durante vinte (quase intermináveis) horas, três dias de trabalho, de uma dedicação minuciosa da parte dela, e de uma entrega sem limites da minha parte.

Quando me perguntam se doeu… 🙂 bem…a dor é tão relativa! Especialmente quando já passamos por dores bem piores…prefiro dizer que não doeu, embora o desconforto da posição (rija, compenetrada) não me permitem pensar que tudo foram ‘flores’.

Antes de iniciar este texto estive à procura de um dos meus artigos aqui do blog, que falava sobre a Fênix e a minha vontade latente de fazer uma tatuagem que ilustraria toda a luta pela qual passei, já há muito tempo ando com estas ‘palavras’ sobre a minha fênix, engasgadas na garganta.

Encontrei o texto –que dava a conhecer a sexta dose de quimioterapia– e foi inevitável voltar a revirar-me, desconfortável, relembrando dias cinzentos.

 

“…Foi como morrer por dentro…e voltar a nascer uma semana depois…

Esperei os dias passarem com paciência, sentia as toxinas matando as minhas células, depois senti-as a diluírem-se, num degradê de cores fluorescentes e tóxicas… Lembrei-me da Fênix…senti-me uma Fênix…Voltei ao meu passado e me ‘vi’ Fênix outras quantas vezes… Este é um dom que não é exclusividade do pássaro…”

Reler os meus textos não é tarefa fácil, relembrar, reviver…dói de novo.

Evito…mas este era um texto que precisava reler quando estava planeando com a Sara Raquel as sessões de tattoo.

img_5138

Fotografia: Daniel Ribau

 

Hoje, digo com propriedade que a frase “Só paro com uma destas nas costas”, está totalmente em desuso por cá 😛 Prefiro substituir pela frase:

“Eu até posso parar, mas vou dar luta!”

Já tenho a minha Fênix nas costas, cada fase do trabalho teve um significado especial para mim, e serei eternamente grata a Sara Raquel, por ter criado em mim esta ilustração do que sou hoje… caso a dúvida se instale, basta olhar para as minhas costas e saber o que sou!

Assim nunca temo o futuro, sei que renasço num movimento colorido de bater de asas.

fenix

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2 thoughts on “Blás, Nietzsche, Notícias e Tatuagens

  1. Força, Mãe Borboleta !Também passei por tudo isso !
    Já lá vão 13 anos e cada 6meses lá vou eu para exames ,consultas …O coração fica apertadinho mas logo passa .
    Em Janeiro, mais um golpe ,estrectomia total .
    Mas cá estou cheia de força!
    Muito AMOR da família é tudo o que precisamos e graças a DEUS isso é o que não falta .
    Beijinho e um abraço apertadinho .

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